sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Velocidade Terminal



Aceleração:   9,81 m/s2

Uma aceleração de 9,81m/s2 significa que, a cada segundo que passa a velocidade aumenta 9,81 m/s o que é quase o mesmo que dizer que aumenta 35 Km/h por cada segundo. Esse é o valor da aceleração da gravidade terrestre, uma força que é exercida sobre nós, durante todo o tempo, pelo nosso querido planeta.

Altitude:     4300 m
Quando subimos a 4300 m de altitude (de avião) e decidimos saltar cá para baixo em queda livre a aceleração da velocidade a que caímos é essa, em menos de 3 segundos já vamos a 100 Km/h e depois disso a força exercida pela resistência do ar faz com que a velocidade aumente mais lentamente até chegar quase aos 200 Km/h.

Velocidade:   200 Km/h
 Esta é a velocidade terminal para um ser humano que cai de barriga com braços e pernas esticadas. A resistência do ar exerce uma força contrária à da gravidade e aos 200 Km/h esta faz com que a velocidade a que caímos deixe de aumentar.

Duração:      1 minuto
Em menos de um minuto já descemos até aos 1500 m, altitude à qual o para-quedas é aberto e tudo se torna mais calmo, suave e relaxado apesar de, ainda assim, ser um nadinha assustador para quem pela primeira vez tira os pés do chão.



Nestas férias deu-me para voar, já antes vos tinha dito que queria voar e uma vez que tudo o que voa corre sérios riscos de, mais tarde ou mais cedo, acabar por cair achei por bem que deveria aprender a cair antes de aprender a voar.
Fui até ao aeródromo de Braga onde, após 5 minutos de instrução na qual me disseram que deveria agarrar-me aos ombros, com a cara voltada para o lado e as pernas dobradas para trás, pude cair do cimo do céu. Isto é tudo o que precisamos saber para podermos saltar com um marmanjo amarrado às costas. Depois de esperar um pouco fomos para o pequeno avião que nos levou até ao cimo dos céus de Braga, é excelente ver o mundo lá de cima , de dentro de um avião pequeno com bué vidro em que a vista de um mundo pequeno abarca quase todo o nosso campo de visão... depois de uma subida de uns 10 ou 15 minutos a porta abriu-se e eu e o marmelo que levava às costas arrastá-mo-nos para o lado de fora. Eu na posição que tinha aprendido na instrução e ele em cima de uma pequena plataforma perto da asa.
Quando estamos ali, assim pendurados no ar, na asa de um avião que está a voar, a adrenalina sobe, as endorfinas começam a atacar o cérebro e... não sei o resto porque não percebo nada de hormonas mas sei bem que ficamos alterados, mas enquanto estamos na nossa posição natural temos a noção que o mundo está lá em baixo e o nosso olhar no horizonte, como acontece durante a maior parte da vida e até aí é tudo normal, ou quase. Estamos assim por uns segundos até que o emplastro que levamos nas costas, sem qualquer aviso e sem que saibamos quando o vai fazer, se inclina e começamos a cair. É nesse momento pelo qual esperávamos mas do qual ainda não estávamos à espera que sentimos um imenso cagaço, pelo menos na primeira vez suponho de deve acontecer a toda a gente, e por mais que quiséssemos ou gostássemos de fazer uma cara bonitinha naquele instante,  para ficarmos bem na fotografia, isso não é possível. A partir do momento em que ele se vira deixamos de controlar o nosso rosto.
Não é possível eu dizer-vos o que se sente naquele momento, quando nos sentimos cair a uma velocidade estonteante, sem nada debaixo de nós mas vou tentar explicar o melhor que sei.
Quando nos viram os olhos para a terra e notamos que deixámos de ver o horizonte para vermos apenas o mundo inteiro bem ali, à frente dos olhos, aquilo que se sente é que já caímos demais, o nosso espírito não conseguiu acompanhar a queda e ficou ali, na asa do avião, esqueceu-se de vir connosco e daí sentirmos uma impressão no peito, uma quase dor, como se nos esmagassem o peito, como se a vida nos fugisse ou nós fugíssemos dela. Felizmente o nosso espírito não demora mais do que umas centésimas de segundo para reparar que nós já fomos e depressa volta para dentro do peito, passa aquela quase dor e aí damos-nos conta do que está a acontecer. Estamos a cair a uma velocidade alucinante de uma altura imensa e apercebêmos-nos de que certamente iremos morrer e ainda por cima o anormal que levamos em cima inclina-nos para que viajemos mais depressa vá-se lá saber porquê. Tão rápido quanto o nosso cérebro, que naquele momento não está a funcionar a 100%, se lembre que o gajo que vai em cima de nós tem um para-quedas que nos vai permitir sobreviver à queda o medo passa e podemos apenas apreciar o momento... sentimos o ar empurrar-nos para cima e não vemos o mundo aproximar-se nem um bocadinho, tudo continua igual, lá no fundo, afinal... se calhar... estamos a voar, vamos poder ficar ali no ar o tempo que quisermos, a voar como se fossemos um pássaro ou um insecto, só com mais vento na cara, tanto que por mais que tentemos não conseguimos mudar a nossa expressão facial, tanto vento que nos empurra os braços para cima, as pernas para cima, a partir do momento em que abrimos os braços deixamos de controlar os movimentos, já não controlamos o rosto, nem os braços, nem as pernas é o vento que nos domina, quem põe os braços na posição que ele quer e as pernas, é ele quem nos dá forma ao rosto... e é justamente quando estamos a apreciar mais aquele voo, quando já estamos a curtir à brava o facto de estarmos a cair e já nem sequer parece tão mau assim se por acaso nos encontrarmos com o solo que o estafermo abre o para-quedas e acaba com a diversão. Sentimos um puxão forte e de repente o mundo já está outra vez lá em baixo e os olhos conseguem ver o horizonte, passamos a descer em silêncio, numa viagem muito mais calma mas ainda assim sentimos-nos fragilmente presos pelos ombros e o mundo ainda bem lá em baixo e ficamos com um pouco de receio de que possamos cair. Vamos descendo devagar até começarmos a ver as árvores aproximarem-se e dá a sensação que vamos bater com os pés num telhado, ou na copa de uma árvore (isso talvez seja só eu porque tenho umas pernas compridas) e parece-nos que afinal estamos a descer depressa demais e... quando damos conta já temos chão debaixo dos pés de novo e a viagem acabou... mas é alucinante, uma viagem extraordinária, isso vos garanto.

Para aqueles de vocês que um dia queiram experimentar podem ir até www.syfuncenter.com.
Um bacano muito porreiro saltou para filmar, podem encontrar um pedaço do filme em  http://www.youtube.com/watch?v=1VLqrxlCCfE, não esperem que eu tenha ficado bonitinho e não estranhem caras de assustado ou de anormal, como disse, as expressões faciais estavam completamente fora do meu controlo.
Encrontram algumas fotos em https://picasaweb.google.com/117986880837828270606/SaltoTandem.

Em conversa com aquele jovem que vêem saltar às minhas cavalitas vim a saber que ele tinha estado em Angola e tinha chegado à tuga há apenas alguns dias. Em breve irá voltar pois estava a criar, ou a dar formação, ou a iniciar o clube de paraquedismo aqui em Angola.

Hã? Quê? Perguntas se o vou fazer de novo?
Podes ter a certeza que sim.

Bernardo.