segunda-feira, 6 de julho de 2015

Saco dos Flamingos


Poxa, há muito tempo que este blog não via letras novas... não, não tenho nenhuma aventura macabra para contar, não vão ser muitas as letrinhas novas aqui até porque em breve vou deixar de ser emigrado em Angola e por isso o blog vai ficar ao abandono de vez, até sempre ou até um regresso a Angola.
Ontem fui com a Tina filmar flamingos, aqui perto, no Saco dos Flamingos que fica bem ao lado da praia das Palmeirinhas e o filme ficou tão janota que não podia deixar de vir aqui gabar-me de ser um excelente realizador e de como Hollywood deve sentir a minha falta, tenho como certo que há umas valentes dúzias de actrizes daquelas todas boazonas que choram dia após dia só porque eu sou engenheiro de elevadores em vez de realizador. É esse o motivo para elas andarem sempre tristes, casa com um descasa com outro para afagar as mágoas, tudo porque não me podem ter perto a filmá-las para ficarem bonitas que nem flamingas.

Para quem quiser ver um excelente filme com flamingos a voar por todo o lado aqui fica o link:

Até à próxima,
Bernardo.

sábado, 30 de novembro de 2013

O último dia foi ontem

...
 
Hoje estou bastante afectado... não liguem se escrever algo de estranho...

Como vocês todos sabem ontem caiu, no norte da Namíbia, um avião da LAM que voava de Maputo para Luanda. É triste quando isso acontece, morreram as 34 pessoas que iam de Maputo para Luanda, pessoas como eu. Não, eu não conhecia ninguém que fosse naquele voo e não é por isso este acidente mais triste que todos os outros acidentes da aviação civil.
 
A diferença entre este acidente e os outros é que eu estava em Maputo, vindo de Luanda e iria regressar a Luanda pelo que podia muito bem ter sido eu.
 
Mais do que isso, quando marquei a viagem não tinha uma data certa para regressar e escolhi o regresso a 30 de Novembro um pouco ao calha. Recebi um email como resposta que dizia que a viagem de 30 teria que ser feita com escala em Joanesburgo e a perguntar se não preferia voar a 29 de Novembro que seria um voo directo (os voos directos são os da LAM). Pensei na altura que o regresso seria para alterar de certeza por isso não valia a pena estar a gastar tempo a pensar em coisas pequeninas.
 
Muito mais do que isso, a diferença entre este acidente e todos os outros é que há uma semana atrás era sábado e eu estava em Maputo e não sabia para quando estava marcada a viagem de regresso mas lembrava-me que era para alterar. Nesse dia eu decidi que voltaria a casa na sexta. Falei com colegas e disse que voltaria para Luanda na sexta-feira, falei com amigos e disse que estaria em Maputo apenas até sexta-feira falei com a Tini e disse-lhe que na sexta voltaria a estar em casa. Nesse dia à noite liguei o computador para enviar um email ao Sérgio e pedir para alterar o meu regresso, que já não sabia para quando estava marcado, para a sexta-feira seguinte, dia 29 de Novembro. Fui procurar o email da minha viagem para enviar como resposta o pedido de alteração e foi aí que vi que regressaria no sábado às 7h... pensei que não valia a pena gastar dinheiro para ir umas horas mais cedo e deixei o regresso inalterado. Quando disse à Tini que ia no sábado ela ficou 'oooh, mas não vinhas na sexta?'.
 
Pois, é isso, estão a ver a coisa... não é apenas um avião que caiu e eu vou fazer a mesma viagem, não, é que foi por nada, foi por preguiça, foi por sorte, foi por um mero acaso, foi porque a morte não quis, a verdade é que eu quase estive naquele avião, foi pura coincidência o facto de não estar e estou feliz por não ter estado, sim estou... mas ao mesmo tempo dói... caramba, ontem... ontem teria sido o meu último dia. Ficava tanta coisa por fazer... mas como se faz? Como é que faço para não sentir que deixo tudo por fazer? Porquê que eu quero tanto mais? Como faço para sentir que posso cair em paz porque já tive o que era para mim e já dei o que era para os outros? Desta vez passou-me ao lado... mas a passar assim tão perto... estou com a sensação que não demora muito para acertar.
 
O último dia foi ontem. Já passou. Todos os outros são bónus.
 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Nú com a mão no bolso


Hoje estive a ver as noticias e por diversas vezes uma ou outra pessoa falou no fim do programa de resgate e o que iria acontecer depois do final do programa de resgate e coisas associadas, houve até quem estivesse a discutir ou a fazer previsões.
Eu sei que sou apenas um bronco e tenho a felicidade de a minha aparência exterior dar a impressão de que sou um gajo inteligente mas não consigo perceber puto destes problemas complicados. Só consigo perceber coisas simples por isso tenho que pensar em analogias mais fáceis de perceber.
Fazendo uma analogia das contas do país com aquelas de casa vamos supor que o governo não é mais do que um gajo rico (sim, Portugal é um país rico) que vive num condomínio de luxo de vizinhos ainda mais ricos. Ou seja é o wannabe lá do bairro, o vizinho que até estava bem num bairro de classe média mas quer fazer parte dos ricos e por isso está no condomínio de luxo.
Eu sei bem que as vossas cabeças pequeninas vos puseram a imaginar um condomínio com apartamentos muito bonitos e uma relvinha lá em baixo mas isso é só porque vocês têm cabeças pequeninas, eu estou a falar de uma coisa de ricos à séria, daquelas com mansões enormes de cinquenta quartos, grandes terrenos, um sitio com o espaço que um gajo precisa para ser feliz que dê para passear a cavalo pelo jardim.
Este rico que é bem rico mas não passa de um wannabe ao pé dos outros teve o incentivo dos verdadeiros ricos lá do bairro, gajos com kumbu aos montes, Steves Jobs e Billes Gates lá do sitio e mudou-se para uma dessas mansões, tudo à grande, com magotes de jardineiros a trabalhar para ter tudo bonito, com governantas e mordomos, motoristas e um exercito de empregados (esta gente são vocês, o senhor é o governo, a mansão e os jardins são o país). Este rico apanhou-se com uns trocos no bolso e pôs-se a comprar estores electricos, banheiras de hidromassagem para as casas de banho da mansão e dos empregados, espalhou campos de ténis pelo jardim, comprou carrinhos de golfe, mandou  relvar a parte do jardim que estava em terra, portões eléctricos e as outras cenas todas que eu nem sei que existem mas que são boas de ter. Os bancos sabiam que ele era rico, vivia no condomínio dos ricos e emprestaram-lhe dinheiro sem olhar a contas. Grande parte das coisas que o triste comprava eram feitas nas empresas dos vizinhos ricos e estes diziam ao banco que era seguro emprestar, que ele era lá do bairro e era investimento seguro.
Chegou a crise (eh pá, neste caso vamos imaginar que chega a todos, até aos ricos) e os bancos começaram a olhar a quem emprestam, os vizinhos começaram a falar que era precisou não gastar à bruta e tal e o senhor de que fala esta história achou também que talvez fosse hora de poupar e deixar de gastar à toa, até pensou deixar de comprar o caviar... ia só fazer mais umas obras que já tinha pensado para melhorar a mansão e empedrar mais uns caminhos pelo jardim mas coisa pouca, nada dos exageros de antes, fez as continhas todas e viu que para pagar as prestações dos empréstimos que tinha pedido, para pagar aos empregados, os contratos para a manutenção de tudo o que tem, os arranjos dos caminhos que se estragam com o tempo, a luz da casa e a água das piscinas e da rega até não estava mal, juntando o caviar para se alimentar (sim aquilo de cortar no caviar ele só pensou nunca chegou realmente a fazer) só tinha que ir sempre, todos os meses, pedir um pequeno empréstimo ao banco e estava safo. A verdade é que se safou, durante os primeiros anos não teve problemas a sério, ia, pedia e emprestavam, até que a divida ficou gorda de mais, as prestações aumentaram e os bancos começaram a criar problemas.
Quando os bancos deixaram de emprestar, quando já nenhum banco aceitava emprestar dinheiro o senhor viu-se mal, tinha que pagar a todos os empregados e a verdade era que até tinha contratado mais do que precisava, tinha que pagar prestações e a manutenção de tudo e foi falar com os vizinhos. Pediu que fizessem uma vaquinha entre todos e juntassem dinheiro para ele conseguir endireitar a vida, em troca iria ajustar as suas contas e em breve estaria de volta à boa vida e poderia pagar o empréstimo aos vizinhos com um bom juro, no final eles até ficariam a ganhar. Aos vizinhos até lhes convinha, iam emprestar com um juro jeitoso pois o risco era elevado e os bancos já não emprestavam e também não lhes convinha que houvesse gente a falir lá no bairro porque os bancos emprestaram a todos e podiam ficar alarmados e descobrir que afinal no bairro nem todos eram tão ricos como pareciam. Os vizinhos decidiram emprestar um dinheirão mas não iam dar tudo ao vizinho estroina que gasta mais do que tem, decidiram que iam controlar se ele ajustava as contas e emprestavam em tranches em que a tranche seguinte dependia do facto dele estar a cumprir com o planeado ou não.
O senhor rico chegou a casa, falou com ar sério que estavam muito mal, que tinham que cortar nas despesas pois gastava-se mais do que se ganhava naquela casa e ele iria fazer um trabalho sério e justo para dividir os sacrifícios por todos e que daí a pouco iram todos voltar a viver melhor, não demoraria mais do que um par de anos para viverem todos à grande e à francesa pois ele até já via sinais da retoma.
Cortou nos salários dos jardineiros, dos motoristas e do exército de empregados, aos mordomos e governantas pediu que fossem mais comedidos e que parecessem agastados com a crise mas deixou as mordomias, e o caviar continuou a vir porque sem comer não se consegue viver. Cortou no subsidio de Natal e de férias, os empregados ficaram chateados e foi-se vivendo com o dinheiro que os vizinhos emprestaram. Quando os empregados reclamavam das dificuldades e do que lhes estava a acontecer porque estavam quase a passar fome ele dizia que a culpa era dos vizinhos, esses vizinhos agiotas a quem até chamava nomes é que eram a causa de tudo isso porque estavam a ganhar com a desgraça deles. Esses vizinhos é que lhe tinham vendido aquelas bugigangas todas de que todos eles gostavam e davam imenso jeito mas foi a custo da felicidade deles todos e esses vizinhos é que o estavam a obrigar a cortar nos gastos e não havia mais hipótese, era nos salários que ele tinha que cortar porque é essa a despesa da casa.Os vizinhos, principalmente aquela vizinha alemã, aquela alemã feia que nem um bode... eles são os verdadeiros culpados porque tinham-no feito gastar tudo, foram eles que fizeram com que os bancos lhe emprestassem dinheiro e no final ainda iam ganhar com tudo isso porque ele iria pagar juros, esses vizinhos deviam mais era estar presos porque eram uns perfeitos inconscientes. Os empregados ficaram a odiar aqueles vizinhos odiosos, que raio, o estupor da alemã era aquela que insistia mais, que não deixava gastar mais, que obrigava o pobre senhor a ser mais poupado pois caso contrário não emprestaria o dinheiro dela e ela era quem tinha posto a fatia de leão da vaquinha que tinham feito, era realmente o demónio aquela alemã, cheia de ideias demoníacas. Para dizer a verdade, penso que nem o demónio conseguiria suportar a companhia de uma bruxa com tais ideias como vizinha.
O senhor cortou bem nos salários, ficou com subsídios ameaçou tirar os seguros de saúde e fechar umas casotas de ferramenta nas partes mais distantes do jardim, tentou fechar algumas torneiras de rega... nem tudo o que planeou fazer conseguiu pois havia sempre quem protestasse mas correu tudo bem e o dinheiro dos vizinhos veio e não houve tumultos de maior entre a criadagem. Continua a gastar mais do que ganha, a dívida até cresceu porque entretanto, mesmo com o dinheiro dos vizinhos a cair no bolso ele falou com uma e outra casa de empréstimos para 'testar a sorte' e alguns empestaram. Hoje, a dias de distância do dia em que os vizinhos vão levar o tranche final do empréstimo fala-se do 'final do programa de assistência' em 'fim do resgate' e no que irá acontecer 'depois do resgate'.

Já vos disse que sou bem burrinho mas devo ser bem mais do que imagino. Será que sou só eu que acho que a coisa não vai correr nada bem? Porquê que toda a gente chama de 'fim do programa de resgate' ao dia em que trazem o ultimo resto do dinheiro que os vizinhos juntaram? O fim não é quando o senhor pagar a dívida aos vizinhos e os juros que lhes prometeu? Que raio, sou só eu que acho que não é solução o milagre de, depois da última tranche, conseguir que os bancos emprestem de novo ao senhor? Sou só eu que acho que se a dívida continua sempre a crescer mais tarde ou mais cedo o senhor vai ter que ir pedinchar aos vizinhos de novo? Sou só eu que acho que gastar um pouquinho menos mas ainda assim ficar a gastar muito mais do que se ganha não é a solução?
Não é preciso mudar de governo, não é cortando num subsidio, algo que custa a todos,  que se resolve. É preciso mudar mentalidades, é preciso ser um pouco menos exigente, é preciso perder um pouco de conforto. Fechar um tribunal é algo chato? é capaz de ser, eu nunca vou ao tribunal mas é preciso fechar alguns. Diminuir o número de juntas é algo horrivel? sim aposto que é, mas é preciso. Ter menos concelhos é fod***, eh pá, é algo inimaginável mas é preciso. Ter coisas a funcionar custa dinheiro, é preciso pagar, ter uma porta aberta significa ter dinheiro a sair do bolso. Habituá-mo-nos a ter tudo à porta e se nos dizem para ir um pouco ao lado vemos logo um monte de problemas e a verdade é que seja o que for que se faça e que seja um retrocesso vai criar sempre problemas a alguém mas esses pequenos problemas são muito mais pequenos do que se a coisa correr mesmo mal, quando os vizinhos não emprestarem o senhor não vai pagar, quando os funcionários públicos não receberem porque não há dinheiro aí sim vai haver problemas.
Eu tive que mudar e sair do bairro rico e trabalhar num bairro pobre onde há crescimento, onde há trabalho e noto alguma picuinhez, mesquinhez aí no quintal dos ricos. Não digo que os sacrifícios não doam, não digo que depois de tantos sacrifícios não custe olhar e ver que nada foi conseguido, não digo que o povo não seja quem se esforçou e quem sofreu por ver as coisas melhorar, mas digo que é mesquinhez fazer revoluções porque a freguesia da pardieira vai ser unida à do ninho-do-fim-do-mundo. Podem unir a minha freguesia com outra qualquer, em trinta anos devo ter ido uma vez à junta de freguesia e se fosse três quilómetros ao lado tinha sido mais chato mas teria ido na mesma. Podem fechar o tribunal da minha terra de três pessoas, caramba, só quem trabalha no tribunal é que tem que ir lá mais do que três ou quatro vezes na vida. Reclama-se se fecha um qualquer serviço no hospital de Ovar e as pessoas têm que ir à Feira, 5Km ao lado, reclama-se porque vão fechar a escola que tem 12 alunos e isso já é mais um do que o que diz a lei e os pequenos têm que fazer 3Km num carro da câmara. Doze alunos não dá quatro por ano, é óbvio que quando não se tem dinheiro tem que se juntar esses alunos com outros.
É preciso exigir que cortem no caviar? sim, é. É preciso exigir que se acabem com as mordomias, sim é? É preciso exigir e reivindicar isso mas ao mesmo tempo ter a consciência que é algo que não se vai conseguir, no tempo de uma vida, com conversas, é preciso mais do que falar, mais do que votar para o conseguir, os poderes instalados falam de cortar no caviar mas é apenas conversa, quem controla são eles, não é por mudarmos de governo daqui a um ou dois anos que algo vai mudar... ganham todos, quer estejam no governo quer não, nunca vão cortar no que é deles, estão lá é para olharem por si e pelos seus não é convosco que estão preocupados.

As coisas estão mal... muito mal, mas a meu ver não se resolveu nada, vão ficar pior, não é o fim do programa de financiamento é apenas a ultima tranche, é preciso mais empréstimos para viver. O fim não chegará nunca, pagar 70 mil milhões quando não se ganha para o que se come é tarefa difícil.

Não tenho cor politica, para dizer a verdade até tenho asco a política, acho que a sul do paralelo 46 (um pouco abaixo da Alemanha, ali onde a Suiça se separa da Itália) só se preocupam todos com o seu umbigo, não conseguem ver mais longe do que a sua barriga, não têm consciência e não se conseguem colocar no lugar do outro nem ver mais do que os seus próprios olhos permitem (quase só conseguem ver o que brilha) e não olham a meios para conseguir o que querem. Tenho vergonha dos nossos políticos e acho que são uma vergonha para eles próprios e para todos os cidadãos que representam. As soluções melhores que têm é dizer que têm que ser eles a ir para o poleiro porque quando eles forem vão fazer com que haja crescimento e criação de empregos sem nunca dizerem como raio vão conseguir tal milagre.
Infelizmente acho que os nossos jornalistas também são de péssima qualidade e em vez de tentarem esclarecer as pessoas preferem parecer muito inteligentes e intelectuais e utilizar os termos fancy que os políticos inventam para poderem dizer que gastam mais do que podem sem que as pessoas percebam, para poderem dizer que é o fim da troika em vez de chamar as coisas pelos nomes e dizerem que é a ultima parte do guito que nos emprestaram para salvar a pele e a data em que o ficamos a dever todo. Deixam que as culpas caiam em cima de quem fez o favor de aceder ao nosso pedido em vez de serem os verdadeiros culpados a serem chamados a responder.
A verdade é que somos todos hipócritas, queremos que o estado diminua desde que não seja a nossa freguesia, o nosso tribunal ou a nossa escola a ser diminuída. Queremos que o estado corte nas despesas desde que não seja a nossa ADSE, a nossa idade de reforma que era inferior à de quem trabalha no privado ou as nossas horas de trabalho que eram menos que a do resto dos portugueses que tem que trabalhar 40 horas a vida toda. Queremos que tudo se resolva... desde que seja com esforço dos outros.


Ainda bem que mudei de bairro.

 


terça-feira, 23 de abril de 2013

Maria Teresa



no sábado passado, de manhã fui ver um problema no BESA, ali em baixo na Mutamba, ao pé da Sonangol... e ali, entre o BESA, Sonangol e a pastelaria Mensagem, na rua que vem da Mutamba para essa zona costuma estar a Maria Teresa sentada no chão. Eu já a conheço de há muito tempo... nem sempre a vejo, nem sempre vou para aquela zona ao sábado. Antigamente ia bué vezes, porque ia muito para a Sonangol... mas agora não.
A Maria Teresa fica sentada no passeio à espera que alguém lhe dê algo... e eu costumava dar-lhe sempre 500 paus, a Maria Teresa era como que o meu limpar de alma... era como que o meu lavar de mãos... dou 500 paus a esta senhora e isso faz de mim boa pessoa... é como ir à missa para uns ou confessar-se para outros.
Aqui há uns meses largos, a meio do ano passado, parei ao pé dela, e em vez de lhe dar apenas os 500 paus do costume baixei-me e perguntei-lhe o nome. Ela disse-me que era a Maria Teresa e eu disse-lhe: 'Olha Maria Teresa, eu tenho uma dívida muito grande com Deus e sei que nunca lhe vou conseguir pagar... por isso vou dar-te a ti.' e dei-lhe duas notas de valor bem mais alto do que as do costume.
Eu não sou religioso, bem pelo contrário... tenho uma certa aversão à religião, acho que foi criada para limitar o pensamento das pessoas, noto, em algumas pessoas, frases feitas que foram marteladas pela religião e lhes saem da boca sem passarem pelo pensamento e que, entre outras coisas, fizeram com que eu não nutrisse qualquer carinho pela religião. Não condeno quem acredita e quem segue... mas acho que serve apenas para colocar as ovelhas todas no rebanho e as manter certinhas. Como uma qualquer ovelha que saíu do rebanho e gosta de passear por outras pastagens, de descobrir mundos novos... parece-me que o rebanho é um pouco limitado e que as ovelhas conseguem ser mais felizes se pastarem à balda pelos campos e comerem as ervas que o pastor não deixa.
No sábado passado fui ao BESA e ela estava lá, eu dei-lhe os 500 paus do costume e fui à pastelaria Mensagem comprar uma garrafa de água... e a garrafa era 200 paus... e eu fiquei naquela... poxa, caramba... como é que gasto 200 paus numa garrafinha pequena de água e espero lavar a alma toda só com 500? Fui até ao sitio onde a Maria Teresa estava sentada perguntei se me podia sentar uns minutos com ela e sentei no passeio. Enquanto as pessoas iam passando eu falei dois minutinhos com a Maria Teresa.
A Maria Teresa costuma estar ali todos os sábados e é uma senhora que tem a cara toda deformada por ter sido queimada... parece que a nossa pele é feita de plástico e alguém queimou a dela fazendo com que se derretesse, os olhos, o nariz, a boca... tudo derreteu e ficou deformado.
Eu sentei e pedi-lhe que me contasse a história dela, o que tinha acontecido para ficar assim. Ela contou-me, enquanto a voz lhe tremia, que quando era pequena, ia para as lavras com os pais e os homens atiraram uma granada, ela ficou assim e os pais morreram. Isso aconteceu na zona do Huambo quando ela tinha uns 14 anos ou assim, ela já não sabe bem. A Maria Teresa hoje tem 50 anos... suponho que passou uma vida inteira sem nunca ter alguém que a amasse, sem que nunca ninguém lhe dissesse como é bonita... e eu senti-me uma pessoa cheia de sorte. Dei-lhe todo o dinheiro que tinha no bolso (infelizmente não era mais do que uma nota grande) e ofereci-lhe a água que tinha comprado... e senti-me uma pessoa cheia de sorte.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Golfinhanço nas Palmeirinhas

No Domingo passado fomos à praia das Palmeirinhas.

Aquilo é logo ali, bem mais perto do que o Sangano ou Cabo Ledo, logo depois dos Ramiros, quando acabamos de passar pelo saco dos Flamingos, onde começa o braço de terra que é o Mussulo basta virar à direita e passado uns metros de estrada de terra, a primeira praia que vemos é a das Palmeirinhas.
Fica 100Km mais perto que Cabo Ledo. Para quem é lento das ideias e ainda não sabe onde é o meu telemóvel fez o favor de pintar um risco num mapa e ainda dá para partilhar esse risco com o mundo inteiro.
Maravilhosos tempos estes em que vivemos, com 100€ podemos comprar uma geringonça com um ecrã imenso e que tem um bichinho chamado android lá dentro que faz coisas maravilhosas. O meu pintou um risco no mapa, disse-me a velocidade a que andei e fez um gráfico com as elevações e depressões do terreno, posso vê-lo no google maps e ainda me deixa ver a viagem à velocidade a que fui no Google Earth, só é pena que o meu carro tenha andado mais depressa do que a velocidade da net aqui em Angola pelo que não se vê nada de jeito no Google Earth mas fiquei maravilhado com o Google My Tracks.
Fica aqui o link com o percurso entre a Samba e a praia das Palmeirinhas.

A praia das Palmeirinhas tem muita areia, muita água, muito sol, mas não tem palmeirinhas desenganem-se aqueles que pretendem procurar palmeirinhas.
Estivemos a nadar e a apanhar sol até que a dado momento alguém grita 'Olha ali um golfinho!!', eu olhei e não é que vi mesmo um golfinho a nadar logo ali, a poucos metros da areia? Os golfinhos são um animal que tem um efeito estranho nas pessoas. Não são como uma simples sardinha, ou um arenque, nada disso, ficámos todos maravilhados com os golfinhos, fomos para mais perto da água e ficamos ali com um sorriso parvo na cara apenas porque os golfinhos estão ali a golfinhar na água como sempre fazem. Tenho a certeza que estavam apenas a pensar em sardinhas e não foram ali para nos cumprimentar nem para nos alegrar, mas o facto de vermos aqueles lombos imensos a aparecer fora da água com a barbatana dorsal a aparecer primeiro enche-nos de emoção, ficamos alegres com o peito cheio de uma sensação de felicidade. Vimos um golfinho, depois eram três, afinal já eram seis, e dez, não, são doze. Ficamos com os olhos colados na água enquanto uma dúzia de golfinhos passava por ali.

- 'Olha ali, olha ali mais. Estão ali uns cinco.' - e todos olhávamos para aquele lado.
- 'Um deu um salto ali, viste?' - Aqueles que já só viam a espuma branca na água sentiam-se frustrados por terem perdido um salto (não houve mais que dois ou três saltos), os que viram sentiam-se um nadinha superiores - 'Ena, deu um salto enorme, saiu todo fora da água.'

Uma ou outra pessoa gritava - 'Saiam da água, pode ser tubarões, saiam da água.'
Um outro dizia - 'É uma orca, a barbatana estava dobrada e caída, são orcas.'
Mas na verdade eram golfinhos.

Dei uma dúzia de marretadas na cabeça por não ter levado a máquina fotográfica, ando todos os dias com a máquina e no dia em que o mar está cheio de golfinhos nada. Espero que não demore muito para que a Google invente o Google Head, dispositivo que instala uma ranhura para um cartão de memória na nuca e permite filmar com os olhos e partilhar sentimentos e emoções com quem quisermos.

A esta altura dizem vocês:
- Bah, golfinhos? Eu já vi golfinhos no ZooMarine, e no SeaLife, e saltavam e até equilibravam bolas na ponta do focinho e passavam pelo meio de argolas... vejo golfinhos quando me apetece, até na televisão se for preciso.

Garanto-vos que não tem nada a ver com esses encontros com hora marcada, eu também já vi espetáculos com golfinhos e também vejo o Odisseia e o National Geographic de vez em quando mas um encontro espontâneo é diferente, eles não foram ali porque alguém os obrigou, não foram ali porque nós estávamos lá, é como a diferença entre ir ao Zoo ver uma zebra ou estar sentadinho a piquenicar no mato e de repente passar uma manada de zebras mesmo à frente. É como a diferença entre ver um veado no Parque Biológico de Gaia ou estar descansadinho a dormitar numa clareira e passar uma família de veados bem à frente dos nossos olhos. Já fui à praia milhares de vezes, esta foi a primeira vez que vi golfinhos na praia e é diferente.

...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

falar à toa...



Ele estava descansadinho a ler uma revista quando ela se vira e diz:

Ela (a falar à toa):  - Sabes, agora que já somos ricos se calhar podemos comer caviar, estava a pensar e neste natal, vamos comprar dois frasquinhos, um para a casa da minha mãe e outro para casa da tua, que achas?

Ele (sensato):       - Tás bem da moleirinha mulher? Sabes que cada boião destes deve custar uns 300 euros ou assim? ...

Ela (relutante):      - ah, eu pensei que fosse práí uns 70 euros...

Ele (enquanto lê):   - 'Ovas de esturjão, caviar Beluga, 625€/30g. Ovas de salmão 17,5€' - Tens mesmo a certeza de que queres gastar 1300€ e depois cada um de nós come 3g de caviar? Ou é melhor encher o bandulho com ovas de salmão?

Ela (arrependida): - ah bem.... se calhar ainda não estamos assim tão ricos.

...


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

'Isso é uma paca.'

Quem vai do Waku Kungo para o Dondo, porque se enganou numa qualquer estrada e queria era ir parar a Catete, passa por uma série de pequenos kimbos e vai vendo pessoal a vender peixes e animais de caça na beira da estrada, como em muitas outras estradas de Angola. A mim também aconteceu e ia a passar por um desses kimbos quando digo:

- 'Olha ali um gajo a vender um coelho, queres um coelho?'
- 'Não é nada um coelho pá, é outro animal qualquer, mas não é um coelho.' - diz o meu companheiro de viagem.
- 'Ah, pois... aquele não tinha orelhas.'

Uns quilómetros à frente estamos a passar por um outro vendedor de beira de estrada e digo eu:
- 'Eh pá, agora vou passar devagarinho, vê lá se não é um rato gigante que o men está a vender?'
- 'Não, não é um rato.'
- 'Caramba, o próximo bacano que vir a vender um rato vou parar e perguntar que bicho é esse.'

Andámos mais uns quilómetros valentes até que numa aldeia estava um miúdo na beira da estrada com um coelho-rato nas mãos para nos tentar a parar e comprar o bicho. Eu parei.

- 'Eh puto, diz-me lá que bicho é esse.'
O miúdo ficou a olhar com um ar bué estranho, e eu do alto da minha arrogancia achei que o pequeno talvez  não falasse português, mas ataquei de novo.
- 'Miúdo, eu não te vou comprar esse bicho porque não me ia amanhar a esfolá-lo nem a desmanchar a carne, mas dou-te 200 paus se me disseres o nome desse animal que queres vender.'
O puto, com ar de quem acha bué esquisito que alguém não saiba as coisas básicas da vida e até com uma pintinha de desprezo na voz por ver alguém tão crescido mas tão ignorante diz:
- 'Isso? Isso é uma paca.'
- 'Hã? Páca? é uma páca?'
- 'Hm hm.'
- 'Olha, mereces os 200 paus, deixa cá ver... eh pá, hoje é o teu dia de sorte, não tenho notas de 200 por isso vou ter que te dar esta de 500 paus.'
Ele ficou todo contente e eu continuei.
- 'Puto, diz-me lá mais uma coisa, quanto é que custa uma paca?'
- 'Quê?'
- 'Quanto é que tu estás a pedir pela paca?'
- '1700 Kz.'

Ngombo com a sua paca

Nisto apareceu um bacano mais velho, com uns vinte e alguns anos que não sei se era pai ou irmão do puto e diz:
Grande - 'Tá a faltar aí.'
Puto     - 'Não.'
Grande - 'Tá a faltar, não tá aí todo.'
Puto     - 'Ele não vai levar.'

Eu reparei que o mais velho tinha um arco (sim um arco daqueles de lançar flechas).
- 'Xê, és tu que caças as pacas?'
- 'Sim.'
- 'Com esse arco? Atiras uma flecha e acertas na paca?'
- 'Ya, assim.' - esticou a corda do arco e largou.
- 'Pôxa, posso tirar-te uma fotografia?'
- 'Podes.'
- 'Caramba, tu vais ali para o mato e a paca vai a passar no meio das ervas, tu atiras uma flecha e acertas-lhe?'
- 'Ya.'
- 'Isso é espantoso.'

O caçador de pacas com o seu arco e flechas


Tirei umas fotos e quando me estava a despedir do pessoal que estava ali perguntei:
- 'Eh puto, qual é o teu nome?'
- 'Ele é o Ngombo.' - disse o mais velho.
- 'E tu vives aqui na aldeia, é Ngombo?'
- 'Sim.'
- 'E onde é a tua casa Ngombo?'
- 'É lá em baixo.'

Eu tenho bué curiosidade de ver uma daquelas casas por dentro, de ver o que eles têm lá, e quase de certeza que eles me deixavam ver... mas achei que seria um nadinha abusador e como a casa era lá em baixo e não logo ali só disse para o mais velho:

- 'Ah... é lá em baixo?'
- 'Ya.'

Foi só depois de entrar no carro e arrancar que me lembrei de tudo o que esqueci. Eu tinha dois pacotes de bolachas, um de batatas fritas e vários de rebuçados no carro que eram do Ngombo mas eu esqueci de lhos dar. Esqueci de perguntar aquela gente como era a vida, o que achavam de viver ali e se eram felizes. Aquela aldeia não tem luz (nenhuma, nem pública nem nas casas), não há electricidade, não têm água nem esgotos, não há gás... Eu nasci num tempo em que já não sabemos viver sem esses luxos que se tornaram necessidades, não sei como é viver sem electricidade, sem saneamento e sem um fogão... como se cozinha? toda a gente acende uma fogueira todos os dias?
Gostava de saber o que eles pensam da vida quando vivem em condições nas quais, segundo os padrões daí da parte de cima do mundo, faltam as necessidades mais básicas. E uma vez que na parte de cima do mundo as pesoas andam um pouco agastadas com a vida e descontentes deveria ter tentado descobrir como se sentem as pessoas que vivem ali.

Acho sinceramente que já vai sendo tempo de alguém inventar uma forma objectiva de medir a felicidade. Nos dias de hoje em que já podemos medir o peso e saber quão gordos ou magros somos, medir a altura e saber se somos grandes ou pequenos já era para podermos medir a felicidade e tal como poderia perguntar ao Ngombo quanto calça para saber se tem os pés grandes poderia também perguntar quanto felicia para saber se o rapaz é mais feliz ou mais triste. E ainda que não houvesse uma forma objectiva de medir a felicidade já devia, pelo menos, alguém ter inventado uma forma subjectiva de a medir, tal como inventaram o Q.I. para medir a inteligência podiam inventar um Q.F. para medir a felicidade... eu próprio já o teria feito, não fosse o pequeno inconveniente de não saber quais as perguntas certas para colocar no teste, mais dificil ainda seria descobrir as respostas certas. Peço a um de vocês que por favor arranje forma de medir a felicidade.
Com o medidor de felicidade nas mãos poderei saber se são aquelas pessoas sem nada mais felizes ou mais tristes que as daí de cima que, ainda que não tenham tudo, não se dão conta de quanto têm.

Durante a viagem decidi que um dia vou experimentar, um dia que não vem longe vou viver numa daquelas aldeias de casas de tijolo de barro com telhado de colmo (não gosto das aldeias com casas de telhado de chapa) durante uma semana, vou pagar para ir trabalhar (ou atrapalhar) com eles, seja no campo ou na caça e vou acordar, almoçar, jantar, conversar e dormir com eles e um dia vou saber como se vive na África verdadeira sem nada a não ser dois bracinhos e duas perninhas para fazer a vida e talvez escreva aqui sobre a experiência.

Espero que não seja tarde de mais para que um dia alguém me pergunte o que quero ser quando for grande (ou pelo menos maior, ou talvez mais velho) e eu possa responder que quero ser explorador. Quero ir de Luanda a Maputo, de Maputo a Mombasa, de Mombasa a Yaounde e de Yaounde ao Cabo, de carro, de bicicela ou a pé e pelo caminho parar e conhecer as pessoas, demorar 10 anos a fazer a viagem, mas conhecer e ser explorador.

Hoje deixo-vos com uma música de uma das minhas bandas favoritas... dêm uma ouvidela aqui.

Cause it's my intention
to not let the good life
and good times pass me by

P.S. - isto de ser explorador é apenas um estado de espírito. Um lingrinhas como eu morria de fome e sede dois dias depois de deixar a civilização.


...

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Velocidade Terminal



Aceleração:   9,81 m/s2

Uma aceleração de 9,81m/s2 significa que, a cada segundo que passa a velocidade aumenta 9,81 m/s o que é quase o mesmo que dizer que aumenta 35 Km/h por cada segundo. Esse é o valor da aceleração da gravidade terrestre, uma força que é exercida sobre nós, durante todo o tempo, pelo nosso querido planeta.

Altitude:     4300 m
Quando subimos a 4300 m de altitude (de avião) e decidimos saltar cá para baixo em queda livre a aceleração da velocidade a que caímos é essa, em menos de 3 segundos já vamos a 100 Km/h e depois disso a força exercida pela resistência do ar faz com que a velocidade aumente mais lentamente até chegar quase aos 200 Km/h.

Velocidade:   200 Km/h
 Esta é a velocidade terminal para um ser humano que cai de barriga com braços e pernas esticadas. A resistência do ar exerce uma força contrária à da gravidade e aos 200 Km/h esta faz com que a velocidade a que caímos deixe de aumentar.

Duração:      1 minuto
Em menos de um minuto já descemos até aos 1500 m, altitude à qual o para-quedas é aberto e tudo se torna mais calmo, suave e relaxado apesar de, ainda assim, ser um nadinha assustador para quem pela primeira vez tira os pés do chão.



Nestas férias deu-me para voar, já antes vos tinha dito que queria voar e uma vez que tudo o que voa corre sérios riscos de, mais tarde ou mais cedo, acabar por cair achei por bem que deveria aprender a cair antes de aprender a voar.
Fui até ao aeródromo de Braga onde, após 5 minutos de instrução na qual me disseram que deveria agarrar-me aos ombros, com a cara voltada para o lado e as pernas dobradas para trás, pude cair do cimo do céu. Isto é tudo o que precisamos saber para podermos saltar com um marmanjo amarrado às costas. Depois de esperar um pouco fomos para o pequeno avião que nos levou até ao cimo dos céus de Braga, é excelente ver o mundo lá de cima , de dentro de um avião pequeno com bué vidro em que a vista de um mundo pequeno abarca quase todo o nosso campo de visão... depois de uma subida de uns 10 ou 15 minutos a porta abriu-se e eu e o marmelo que levava às costas arrastá-mo-nos para o lado de fora. Eu na posição que tinha aprendido na instrução e ele em cima de uma pequena plataforma perto da asa.
Quando estamos ali, assim pendurados no ar, na asa de um avião que está a voar, a adrenalina sobe, as endorfinas começam a atacar o cérebro e... não sei o resto porque não percebo nada de hormonas mas sei bem que ficamos alterados, mas enquanto estamos na nossa posição natural temos a noção que o mundo está lá em baixo e o nosso olhar no horizonte, como acontece durante a maior parte da vida e até aí é tudo normal, ou quase. Estamos assim por uns segundos até que o emplastro que levamos nas costas, sem qualquer aviso e sem que saibamos quando o vai fazer, se inclina e começamos a cair. É nesse momento pelo qual esperávamos mas do qual ainda não estávamos à espera que sentimos um imenso cagaço, pelo menos na primeira vez suponho de deve acontecer a toda a gente, e por mais que quiséssemos ou gostássemos de fazer uma cara bonitinha naquele instante,  para ficarmos bem na fotografia, isso não é possível. A partir do momento em que ele se vira deixamos de controlar o nosso rosto.
Não é possível eu dizer-vos o que se sente naquele momento, quando nos sentimos cair a uma velocidade estonteante, sem nada debaixo de nós mas vou tentar explicar o melhor que sei.
Quando nos viram os olhos para a terra e notamos que deixámos de ver o horizonte para vermos apenas o mundo inteiro bem ali, à frente dos olhos, aquilo que se sente é que já caímos demais, o nosso espírito não conseguiu acompanhar a queda e ficou ali, na asa do avião, esqueceu-se de vir connosco e daí sentirmos uma impressão no peito, uma quase dor, como se nos esmagassem o peito, como se a vida nos fugisse ou nós fugíssemos dela. Felizmente o nosso espírito não demora mais do que umas centésimas de segundo para reparar que nós já fomos e depressa volta para dentro do peito, passa aquela quase dor e aí damos-nos conta do que está a acontecer. Estamos a cair a uma velocidade alucinante de uma altura imensa e apercebêmos-nos de que certamente iremos morrer e ainda por cima o anormal que levamos em cima inclina-nos para que viajemos mais depressa vá-se lá saber porquê. Tão rápido quanto o nosso cérebro, que naquele momento não está a funcionar a 100%, se lembre que o gajo que vai em cima de nós tem um para-quedas que nos vai permitir sobreviver à queda o medo passa e podemos apenas apreciar o momento... sentimos o ar empurrar-nos para cima e não vemos o mundo aproximar-se nem um bocadinho, tudo continua igual, lá no fundo, afinal... se calhar... estamos a voar, vamos poder ficar ali no ar o tempo que quisermos, a voar como se fossemos um pássaro ou um insecto, só com mais vento na cara, tanto que por mais que tentemos não conseguimos mudar a nossa expressão facial, tanto vento que nos empurra os braços para cima, as pernas para cima, a partir do momento em que abrimos os braços deixamos de controlar os movimentos, já não controlamos o rosto, nem os braços, nem as pernas é o vento que nos domina, quem põe os braços na posição que ele quer e as pernas, é ele quem nos dá forma ao rosto... e é justamente quando estamos a apreciar mais aquele voo, quando já estamos a curtir à brava o facto de estarmos a cair e já nem sequer parece tão mau assim se por acaso nos encontrarmos com o solo que o estafermo abre o para-quedas e acaba com a diversão. Sentimos um puxão forte e de repente o mundo já está outra vez lá em baixo e os olhos conseguem ver o horizonte, passamos a descer em silêncio, numa viagem muito mais calma mas ainda assim sentimos-nos fragilmente presos pelos ombros e o mundo ainda bem lá em baixo e ficamos com um pouco de receio de que possamos cair. Vamos descendo devagar até começarmos a ver as árvores aproximarem-se e dá a sensação que vamos bater com os pés num telhado, ou na copa de uma árvore (isso talvez seja só eu porque tenho umas pernas compridas) e parece-nos que afinal estamos a descer depressa demais e... quando damos conta já temos chão debaixo dos pés de novo e a viagem acabou... mas é alucinante, uma viagem extraordinária, isso vos garanto.

Para aqueles de vocês que um dia queiram experimentar podem ir até www.syfuncenter.com.
Um bacano muito porreiro saltou para filmar, podem encontrar um pedaço do filme em  http://www.youtube.com/watch?v=1VLqrxlCCfE, não esperem que eu tenha ficado bonitinho e não estranhem caras de assustado ou de anormal, como disse, as expressões faciais estavam completamente fora do meu controlo.
Encrontram algumas fotos em https://picasaweb.google.com/117986880837828270606/SaltoTandem.

Em conversa com aquele jovem que vêem saltar às minhas cavalitas vim a saber que ele tinha estado em Angola e tinha chegado à tuga há apenas alguns dias. Em breve irá voltar pois estava a criar, ou a dar formação, ou a iniciar o clube de paraquedismo aqui em Angola.

Hã? Quê? Perguntas se o vou fazer de novo?
Podes ter a certeza que sim.

Bernardo.


sábado, 11 de agosto de 2012

Little Big Adventure


Olá.
Não quero que pensem que estou a ressuscitar este blog dos mortos, ele está morto e bem morto, mas por vezes os mortos também aparecem.

Aqui há uns dias uma aventura apanhou-me ali na estrada e fiquei a pensar que é tão caricata que caso eu ainda me dedicasse à escrita havia de escrever sobre ela, mas por outro lado, se matei o blog há meio ano atrás não fazia grande sentido contar-vos as coisas que me acontecem deste lado do mundo. Andei uns dias com vontade de a escrever e consegui controlar-me mas hoje estou sem nada para fazer, num avião que já atrasou hora e meia por isso vou escrever.

Como ia dizendo, aqui há uns dias, ia eu todo pimpão no meu carrito ali na Av. Comandante Valódia já a chegar à Alameda, aquilo é uma estrada que naquela zona tem duas faixas mas como essas duas faixas estão sempre paradas cheias de veículos que querem virar à direita para a Alameda toda a gente sabe que quem quer seguir em frente vai pela terceira faixa, que não existe fisicamente mas existe num plano espiritual. Todas as pessoas que conhecem a rua sabem que é assim, a terceira faixa, para quem quer ir em frente apesar de não se ver existe e por vezes até são os polícias que fazem uma separação com aquelas coisas de plástico laranja e criam a terceira faixa para aqueles que querem seguir em frente.
Pois bem, ia eu todo contente, com um sorriso na cara e instintivamente vou para a terceira faixa, levava carros à frente e carros atrás, o polícia que estava no cruzamento com a Alameda a coordenar o trânsito mandou-me parar para que andassem aqueles que estão a circular na Alameda. Eu parei, ele viu-me ali tão contente que pensou para si próprio ‘Espera aí que já te tiro esse sorriso da cara’. Vai na minha direcção e pede-me a carta, era um gajo novo, mais novo do que eu (ou talvez eu já não seja novo).
- ‘Fiz alguma coisa de errado?’ - perguntei enquanto lhe entregava a carta.
- ‘Você está a ocupar a faixa de rodagem contrária.’
 - ‘Quê? Estás a gozar comigo irmão?’
- ‘Aqui só tem duas faixas e o Sr. está a ocupar a faixa do trânsito que vem em sentido contrário. O bilhete de identidade, tens?’ – Como eu já apanhei uns tiques mwangolés na fala grande parte das pessoas acham que sou angolano, eu procurei pelo passaporte e procurei e procurei e comecei a ter suores frios… caramba, ser apanhado sem passaporte… isso dá para deixar ali no bolso do outro um dinheirão e isso é se ele simpatizar comigo… andei à procura e à procura… mas o passaporte estava na minha mochila que tinha deixado no escritório.
- ‘Encoste ali e venha aqui ter comigo.’
Eu encostei o carro e ele mandou encostar também os três carros que estavam atrás de mim. Fui ter com ele e disse:
- ‘Irmão, tu estás a brincar, não estás? Eu passo aqui todos os dias, toda a gente faz isto, eu sei que só há duas faixas mas essas duas querem virar à direita e quem vai em frente faz sempre assim e tem dias em que há quatro filas irmão. Não me compliques. Olha estes todos aqui a passar, toda a gente faz isto.’ - Dizia eu, enquanto apontava para uma terceira fila já com dezenas de carros exactamente no sitio onde eu tinha estado.
- ‘Olha, já mandei parar também aqueles todos, o bilhete de identidade? Já encontraste?’
Eu não o tinha encontrado como é obvio mas não me descosi e nisto apareceu o pessoal dos outros carros que o polícia tinha mandado encostar e estavam todos a mandar vir com o polícia quando ele devolveu a multa que substituía a carta de condução de um candongueiro. O rapaz arengou qualquer coisa que não percebi na direcção do policia e ele ficou irritadíssimo – ‘Eu vou-te apanhar.’ - disse o policia enquanto apontava para o rapaz.

Aqui vamos fazer uma pausa, para vocês que não sabem como se processam as burocracias aqui deste lado do mundo tenho que vos explicar que, aqui, quando cometemos uma infracção no trânsito o polícia pede logo a carta para que não possamos fugir e só depois se discute a situação. Por norma as coisas resolvem-se amigavelmente com uns valores que variam dependendo do humor do policia, do aspecto do infractor e da gravidade da infracção.  Já da última vez (antes desta) que me apanharam não consegui chegar a acordo, o policia estava irredutivel num valor, a negociação correu mal e ele acabou por passar-me mesmo a multa. Pois bem, como aqui a morada de muitas pessoas é a casa sem número na rua sem nome apontar matriculas ou ficar com os dados de alguém não serve de nada, então, os polícias mal apanham a carta na mão metem no bolso e quando nos passam uma multa ficam com a carta e nós com a multa. A multa substitui a carta de condução e supostamente depois de a pagarmos na Direcção de Viação e Trânsito a carta é-nos devolvida. Ora, dessa última vez que me passaram a multa esta foi paga no dia seguinte e a carta ainda não estava na DVT. Andei dois meses com uma multa e o comprovativo do pagamento da mesma enquanto um rapaz do escritório foi uma dezena de vezes à DVT para ir buscar a carta que teimava não aparecer, era sempre necessário algo mais, um papel de sabe deus o quê ou esperar mais uns dias. Por alturas destas peripécias que agora vos conto eu tinha a carta há três dias e já estava a vê-la desaparecer de novo. 
Quando temos uma multa porque a carta anda no bolso de um outro polícia ou perdida na DVT o polícia que nos manda encostar não tem carta para apreender e então acontece que chateiam bem menos e mandam seguir com mais facilidade do que se a tivéssemos. Como deste lado do mundo tudo se consegue comprar e tudo se vende os candongueiros nunca andam com a carta, têm sempre uma multa que a substitui durante umas semanas. Por isso é que o polícia da aventura que vos conto devolveu uma multa e não uma carta de condução ao candongueiro.

Mas voltando à aventura, o policia naquele momento em que estava irritado devolveu as cartas de condução ao pessoal todo menos a quem? Pois… a minha ficou lá no bolso.

- ‘Anda, eu vou contigo, onde é que está o teu carro? Vamos virar ali à esquerda para o São Paulo, aquele gajo insultou-me e eu vou apanhá-lo.’
- ‘Então e a minha carta? Devolveste a todos e não me dás a minha?’
- ‘Mas não ouves o que eu digo? Eu vou contigo.’
Entramos no carro e começo a conduzir.
- ‘Vira aqui à esquerda, vamos para o São Paulo.’
- ‘Mas aqui é que é proibido virar.’
- ‘Mas sou eu que te estou a mandar, não te vou multar se te mando virar aqui, vira à esquerda. Aquele gajo insultou-me e nós vamos apanhá-lo.’
Lá fomos nós, havia uns carros à nossa frente e eu ia descansadinho da vida atrás de quem vai à frente como sempre faço quando ele faz uma cobra a ondular com o braço.
- ‘Hã? Viro aqui à direita?’
- ‘Não ginga pelo trânsito, rápido, vamos mais depressa.’
Tentei fazer conversa para ver se ganhava a simpatia do polícia que ia ali ao meu lado mas a verdade é que eu sou uma nódoa a fazer conversa.
- ‘Eh pá, mas tu sabes para onde o gajo foi é?’
- ‘Foi para o São Paulo.’ E nisto lê a matricula da ximbunga que tinha apontado no braço.
Chegamos ao São Paulo e vamos em direcção às traseiras do Cine São Paulo e, como sempre, havia uma confusão enorme de trânsito ali, iam umas ximbungas à frente e ele pergunta:
- ‘Consegues ver a matricula desse táxi aí?’
- ‘Hmm… não, o carro da frente tapa.’
- ‘Espreita aí, não consegues mesmo ver?’
- ‘Não, mas se quiseres podes sair para ver e eu apanho-te mais à frente.’
- ‘É que o gajo não me pode ver, senão foge de novo.’ – disse ele enquanto ia saindo do carro.
Eu fiquei parado no trânsito e ele foi andando… e daí a pouco quando avancei e cheguei ao cruzamento mesmo nas traseiras do Cine São Paulo já não o via. Caramba… eu ali, o homem com a minha carta… tinha que o encontrar ou ficava sem carta para sempre.

Vou tentar descrever como é aquela zona… não há uma forma simpática de ilustrar aquela zona e vai parecer uma descrição racista e preconceitosa mas vou tentar fazê-lo da forma mais cordial possível. O São Paulo é como que um dos locais onde acaba a Luanda cosmopolita com pessoas de todas as cores e nacionalidades e começa a Luanda negra, uma cidade que a maioria dos estrangeiros não conhece e onde tem receio de ir. Para lá do São Paulo fica a Cuca e o Cazenga, bairros que a maioria dos estrangeiros que vivem nesta cidade e que são muitos não frequentam nem conhecem. Enquanto que na cidade vemos europeus, norte e sul americanos e asiáticos por todo o lado, seja a pé ou de carro depois do São Paulo isso é muito menos comum e as pessoas, por norma, estão muito menos arranjadas do que as que se vêm no centro da cidade. Eu já dei uns passeios a pé ali pela zona do mercado do São Paulo, onde o chão sujo está coberto de roupas, sapatos, detergentes, bolachas, frutas e tudo o mais e as ruas estão cheias de gente, muitas vendedoras sentadas no chão e muita gente a passar ou à espera de táxi. Vocês que vivem aí na parte norte do nosso planeta estão já a imaginar uma feira como as daí da tuga mas não é bem o mesmo. Passamos por bancas que vendem peixe ou carne que estão ali à temperatura ambiente completamente cobertos de moscas e quando passamos vemos um enxame de moscas a levantar voo durante dois ou três segundos para poisar logo assim que nos encontramos a uma distância que elas considerem segura. É uma zona de cheiros muito intensos e posso dizer-vos que os tugas que trabalham comigo no escritório têm medo e nunca passaram por ali a pé.
Pois bem, eu vi-me ali sozinho e sem saber do polícia que tinha a minha carta. Estacionei e fui dar uma volta à procura dele… não foi difícil de encontrar, há uma rua que vai das traseiras do Cine São Paulo para a estrada principal e que fica completamente coberta de iáces, ninguém anda enquanto eles não enchem o táxi e arrancam, uma por uma, demora-se uma meia hora para percorrer aqueles dez metros de estrada de carro. Felizmente eu estava a fazê-los a pé quando vejo um polícia a arrastar um marmanjo, já levava uma multidão atrás e um outro polícia ao lado. Eu tentei tocar-lhe no ombro mas ele estava ocupado a arrastar o outro marmelo que tentava evitar ser arrastado enquanto se ia queixando e pedindo para o largarem, o polícia que acompanhava o meu policia disse que não era boa altura e eu limitei-me a segui-los. Arrastou-o até à esquadra móvel do São Paulo enquanto ele ia tentando escapar e se queixava de ter sido agredido. Um monte de gente a ver a confusão e a olhar para mim, que não sendo propriamente branco era a pessoa mais engomadinha que ali estava e estava bem no meio da confusão. Algum tempo depois conseguiram enfiar o rapaz para dentro da esquadra móvel e depois de tudo explicado aos colegas que estavam de serviço lá houve um momento mais calmo e eu pedi a carta ao polícia, ele disse-me que tivesse calma e que fosse buscar o carro pois ele próprio iria levar o meliante para a esquadra. Lá vou eu buscar o carro com a esperança de conseguir a carta de volta ainda durante aquele dia… todo pimpão pelo meio dos táxis até que sou interpelado por alguém.
- ‘Para onde vais?’
- ‘O quê, estás a gozar comigo?’
- ‘A tua documentação, tens os teus documentos contigo?’ – era um outro policia, este com uma farda mais escura que os de trânsito mas não era dos ninjas, pareceu-me ser de um escalão inferior aos de trânsito.
- ‘Eh pá, eu não tenho tempo para isto, estou ali a ajudar um colega teu que está ali na esquadra móvel e me pediu para ir buscar o carro.’
- ‘Ah sim? E para onde vais?’
- ‘Vou buscar o carro, eu tive que dar boleia a um colega teu para apanhar um meliante e agora ele pediu-me para ir buscar o carro, iá?’
- ‘Sim, mas depois disso, para onde vais?’
- ‘Então, depois vou trabalhar irmão, eu estava a trabalhar antes do teu colega me pedir ajuda.’
- ‘Ah, é um transito, é?’
- ‘Sim irmão, tenho que ir, iá?’
- ‘E não deixas uma ajudinha?’
- ‘Hoje não pá, já estou bem enrascado com o teu colega. Hoje não dá, iá?’
E lá vou eu buscar o carro. Um tempão depois lá estou eu a chegar à esquadra móvel e ele diz-me para estacionar do outro lado na berma. Passado um pouco vem ter comigo e diz que já está tudo resolvido, só tive que lhe dar boleia de volta para onde ele me tinha encontrado e lá recuperei a carta de condução. Só demorou uma tarde quase inteira, mas pelo menos ganhei uma aventura para contar :).

Bernardo.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Ando a ser seguido

É como vos digo, sou seguido. Foi, tal como acontece com a maior parte das merdas que me acontecem na vida, de forma totalmente inesperada que o soube, estava eu no Lubango onde tinha ido fazer um trabalhinho de dois dias e quando o men que me tinha andado a aturar nesses dois dias me ia levar ao aeroporto deu uma boleia a um colega, conversa vai conversa vem diz o colega:

- Colega: eh pá, eu antes de vir para Angola andei a ver umas informações e fiquei seguidor de um blog, acho que é emigrado em angola ou assim, e era escrito por um gajo que também se chama Bernardo e até é meio parecido contigo.

Eu fiquei todo encaralhado, eh pá, não sei porquê mas fiquei com vergonha, sei lá, afinal parece que até há desconhecidos que liam as patetices que eu escrevia? Fiquei com o ego cheio, caramba agora sou conhecido por desconhecidos e até quase que sou reconhecido na rua (foi dentro do carro, pelo que técnicamente não podemos considerar que fui reconhecido na rua)... quase que já só falta sofrer um atentado para eu ser gente, mas apesar de ficar com o ego bué gordo fiquei todo nervoso e envergonhado, vá-se lá a saber porquê... sou assim, em muitas situações, principalmente naquelas em que até quero parecer um gajo inteligente e interessante, começo a transpirar e fico sem saber o que dizer, não é voluntário é assim como quem tem espasmos, ou convulsões, é involuntário mas acontece.


- Eu: ah sim? ... interessante.
- Colega: por acaso não és tu?
- Eu: ah, é possivel... talvez até possa ser.
- Colega: eh pá, eu curto bué esse blog, li aquelas histórias todas, de quando tiveram o acidente, a outra sobre conduzir sempre pela esquerda. Eu só estou no Lubango mas mal cheguei vi logo que era mesmo verdade, e as fotografias tiradas de cima da Sonangol e de quando blá blá blá.

Bem, o seguidor, que é um de entre aqueles 27 que estão listados ali em cima à direita, sabia as histórias todas, é bué simpatíco, estivemos a conversar durante a viagem toda (que é práí de 2 minutos inteiros) e gostei mesmo de o conhecer e de falar com ele.

Nota final:  aquela cena do atentado era brincadeira... eu nem quero ser gente.

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Hoje o avião vinha cheio cheiinho, as pessoas vinham todas amontoadas (um em cada lugar, claro está) mas ninguém se sentou num dos dois lugares ao meu lado. Eh pá, eu até agradeço aos deuses que ninguém se tenha sentado lá, fico com espaço para me poder esticar um pouco. Sempre que vou com pessoas ao lado é um sofrimento, as pernas compridas ficam sem posição em que estejam confortáveis e não se conseguem esticar um pedacinho... é chato. Ora bem, eu até gosto que ninguém se sente por perto mas fiquei a pensar... caramba, porque raio as pessoas preferem sentar num sitio onde já tem duas a ficar perto de mim? Será que cheiro mal? Tomei banho ontem às 20h, hoje às 7h e novamente hoje às 11h, será que devo mudar de gel de banho?

...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

The End



Aqui o 11 de Novembro é feriado, é o dia da independência e como tive a sorte de me calhar numa sexta-feira aproveitei para escapar ao trabalho de sábado e ir conhecer mundo com a ‘mary poppins’. Decidimos partir por essas estradas fora e ir até Malange para ver a quedas de Kalandula. 
Ainda mal tínhamos iniciado a viagem quando, pelo caminho, apanhámos com uma tempestade diferente de qualquer outra pela qual eu tivesse passado antes. Era uma tempestade tal que por vezes mal se via a estrada mas o que caía no vidro do carro não era água da chuva, nem neve, nem granizo... eram borboletas, borboletas pretas.
Não sei que fenómeno borboletífero acontece por esta data nesta parte do globo mas a verdade é que estou convencido de que todas as borboletas pretas do mundo se reuniram ali, numa faixa de alguns quilómetros de estrada rodeada de floresta entre Luanda e o N’Dalatando. Um milhão de borboletas morreram no vidro do meu carro, outro milhão no do carro da frente e mais outras tantas no carro que seguia à frente desse. Havia tantas borboletas que não era possível passar sem esborrachar um milhão delas que ao serem esmagadas contra o vidro o deixavam coberto de uma substancia pastosa amarelada que teimava em não sair facilmente apenas por se borrifar água no vidro e ligar os limpa pára-brisas. Um milhão daquelas borboletas morreu naquele dia por cada carro que passou naquela estrada e ainda assim o chão estava coberto por milhões mais.

No N’Dalatando fizemos uma paragem para conhecer a cidade e tirar umas fotografias e em menos de alguns minutos ficámos rodeados por umas dezenas de miúdos que tudo o que queriam era que eu lhes tirasse uma fotografia para que depois a pudessem ver e se conseguissem encontrar a si próprios, no pequeno ecrã da máquina, no meio da confusão de pequenos que povoava cada fotografia. A vontade de se verem na fotografia era tanta que não paravam de se empurrar uns aos outros e de me puxar os braços para que cada um fosse o primeiro a poder gritar ‘eu estou ali, aquele sou eu’.

Seguimos para Malange, e como fomos à aventura, sem hotel marcado corríamos o risco de não haver quartos e qual não é... corremos todos os hotéis da cidade, todas as pensões e todos os albergues, ninguém tinha quartos... nem mesmo a subtil insinuação de que eu pretendia pagar o dobro do valor do quarto, apenas por causa do ar simpático do dono de uma albergaria, quando este me disse que tinha acabado de alugar o último surtiu qualquer efeito. Valeu-nos o tuga, dono de um restaurante que nos encaminhou para uma missão beneditina / seminário onde dormimos num quarto paupérrimo, com uma casa de banho sem luz e onde na manhã seguinte não havia água. Na incansável busca por um quarto acabámos por conhecer um simpático casal de estranhos que andava na mesma odisseia e com o qual nos cruzámos diversas vezes e sem que tivessemos combinado acabaram por ir parar ao mesmo sitio que nós.
Fomos ver as quedas de Kalandula no dia seguinte e imbuídos do espírito de aventura que África nos faz sentir decidimos meter a nossa amostra de jipe pela picada entre Kalandula e o Cacuso em vez de seguir pela estrada de alcatrão que tínhamos feito no dia anterior. Perguntei à ‘betty boop’ se ela se sentia com vontade de arriscar a ficar atascada na lama sem rede de telemóvel para pedir ajuda e a dezenas de quilómetros de qualquer povoação, como obtive resposta afirmativa lá fomos nós. Passámos por kimbos esquecidos pela civilização onde os pequenos nos acenavam e gritavam quando passávamos, noutros onde os pequenos que brincavam na lama fugiam ao avistar o carro e sempre que encontrávamos três ou quatro a brincar perto da estrada oferecíamos-lhes os bombons que tínhamos comprado numas bombas de gasolina e em troca eles ofereciam-nos um sorriso imenso e alguns gritinhos de alegria.
Valeu-nos a tracção às quatro rodas da nossa mini-micro-amostra de jipe pois passamos em alguns lameiros onde deu para a adrenalina subir ao cérebro e criar um medo miudinho de ficar no meio da lama.
Umas vezes rodeados de floresta, outras a ver savana até onde a vista alcança foi ali que me senti mais em África.

Fomos ver as Pedras Negras de Pungo Andongo um sitio espetacular e onde vale mesmo a pena subir e sentar um pouco a apreciar a vida e ainda tentamos ir ver a maior barragem de Angola, a barragem de Capanda. Eu que já estive na de Cambambe e sei que tive que passar por dois controlos policiais onde foi necessária uma autorização já sabia que o mais provável seria não podermos chegar nem perto e assim foi. Um ‘pula’ habituado a passear por cima das barragens da tuga não se lembra destas coisas mas imagino que as barragens, durante a guerra, fossem alvos militares bastante apetecíveis para o inimigo e como tal têm que ser bem protegidas. As memórias da guerra ainda não desapareceram por completo e no controlo policial antes da barragem de Capanda não nos deixaram passar para a visitar, é preciso autorização e nem sequer de longe chegámos a ver o rio. Pelo caminho vimos apenas tempestades ao longe, na savana, com relâmpagos a cair em locais distantes.

Tirámos muitas fotos bonitinhas entre as quais a que eu mais gosto é a das seis pequenas com que nos cruzámos em Kalandula, cada uma levou um bombom e em troca posaram para uma fotografia linda que a ‘quinny’ tirou e com que eu enfeitei este post para que parecesse bonito e vos levasse, ao engano, a lê-lo. Fizemos também dois filmes, são bastante foleiros mas por certo vocês também não esperavam melhor. A verdade é que foram feitos com uma máquina fotográfica das reles e baratas e também se eu soubesse fazer filmes estava a esta hora em Hollywood, numa qualquer festa muito chic, ao lado da Angelina Jolie e de outras que tais, certinho é que não estava aqui a escrever nem vos ia contar nada do que fizesse nessas loucas festas cheias de actrizes lindonas.

O filme das quedas de Kalandula podem ver em:

O filme com as borboletas podem ver em:

Chamo a atenção para a berma da estrada, esta é de cimento branco mas de tantas borboletas ficou completamente preta. 
Cada ponto preto que se vê no filme não é um lixo na câmara nem no vosso ecrã, é uma borboleta que mais tarde se transformou em 'gosma nhanhenta espalhada pelo vidro de um carro'.

Para as fotografias, que são muitas fiz um novo álbum, encontram-no em:

Esta foi a última vez que vos escrevi e é aqui que me despeço de todos vós... infelizmente escrever faz-me ficar com o ego gordo (coisa típica de homens), caso vocês não saibam egos gordos fazem pessoas arrogantes e eu já não ando longe de me achar um qualquer semi-deus, tal e qual divindade incarnada já tenho alguns tiques faraónicos... Tudo isso não ajuda nada a ser boa pessoa, mas também não é para menos, a verdade é que tenho vinte e oito seguidores e lembro-me vagamente de ter ouvido falar de alguém que há dois mil e tal anos atrás tinha apenas doze seguidores, sem internet e sem nada acabou por morrer com a idade que tenho hoje e daí surgiu uma religião imensa com milhões de seguidores. Pois bem, não é nada disso que pretendo para mim, eu quero apenas ser eu pois é aquilo que sei fazer melhor e uma vez que já tenho mais do dobro de seguidores do que esse outro rapaz tinha com a minha idade parece-me que o mais sensato é parar por aqui.
As escrituras do Bernardo acabaram hoje, a 16 de Novembro,  quatro ou cinco meses antes de fazer dois anos que começaram. Dois anos é uma vida e valeu a pena a este blog existir por este tempo, hoje morreu mas morre com a sensação de que teve uma vida jeitosinha, não foi inesquecivel mas viveu, não era intenção dele deixar saudades nem que a sua falta fosse sentida.
Saibam que se aqui voltarem será apenas para reler histórias antigas (a verdade é que há duas ou três que são razoaveizinhas e vale a pena reler).

Desta é que não volto,
Bernardo Marques.

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domingo, 16 de outubro de 2011

Sorriso Chocolate


Hoje conheci alguém que verdadeiramente me impressionou, desta vez, ao contrário de quando o disse no texto que escrevi há uns dias, digo-o sem qualquer sarcasmo na voz. 
Durante o curto tempo que já vivi não foram muitas as pessoas que me impressionaram de verdade. Não me consigo lembrar de muitas mas também é natural, eu não ando aí pela rua a tentar impressionar os outros e, como tal, tomo como natural que os outros não andem por aí a tentar impressionar-me mas por vezes acontece quando não estamos nada à espera. 

Lembro-me de um indiano que numa manhã de Maio de 2006, numa rua de Hong Kong, me confundiu com alguém conhecido e me falou em híndi (ou numa qualquer outra das restantes 21 línguas oficiais da Índia) e quando viu o meu olhar de estranheza lá me perguntou em Inglês se eu não era Indiano. Disse-me que eu era deveras parecido com um grande amigo dele. Sentei-me num banco de jardim com o homem e enquanto conversávamos ele escrevinhou umas coisas num papel e disse que tinha um dom. Dobrou o papel, pôs-mo na mão, pediu-me que a fechasse com força e a mantivesse bem fechada, depois foi fazendo perguntas:

- ‘como te chamas?’ – ‘Bernardo.’
- ‘que idade tens?’ – ’28.’
- ‘e de onde és?’ – ‘ de Portugal.’
- ‘és casado?’ – ‘ah, nunca assinei nenhum papel, nem nunca se fez nenhuma festa, mas sim, vivo com uma rapariga por isso acho que sou casado.’
- ‘e qual é o nome dela?’ – ‘ora, é um nome português, se eu o disser digo-o em português e o mais provável é que não percebas.’ – ‘está bem, mas diz-me o nome dela.’ – ‘Cristina.’
- ‘se tivesses um desejo que se pudesse tornar real, apenas um, qual era a coisa que mais querias neste mundo?’ – ‘oh, eu sou uma pessoa simples e o que quero é apenas ser feliz, não preciso ter dinheiro nem viajar, não quero ser importante nem ser influente, não quero ser rico nem quero ser famoso, quero apenas ter uma vida feliz.’
- ‘Diz um número entre um e dez’ – ‘sete.’
- ‘Abre a mão e vê o papel.’

O pequeno farrapo de papel que aquele desconhecido me deu para a mão, antes de eu lhe ter dito qualquer uma daquelas coisas, depois de desdobrado revelou ter escrito ‘Cristina’, ‘Happy Life’ e ‘28’.
Ele lá explicou que o 28 era a minha idade, Cristina o nome da minha mulher e Happy Life o meu desejo. Disse-me que 2007 seria o meu ano de sorte, daí eu ter escolhido o número sete, e que eu iria ganhar uma fortuna nesse ano e ele estava tão convencido disso que num outro papel escreveu o seu nome, Gulzar Singh, e o número de telefone dele na Índia. Mostrou-me umas fotografias de uns rapazes com diferentes deficiências e disse-me que na Índia ele dirigia um mosteiro onde acolhiam crianças desfavorecidas. Pediu-me encarecidamente que quando eu ficasse rico (no ano seguinte, 2007) não me esquecesse dele e fizesse uma contribuição para a instituição. Eu como céptico que sou nestas coisas místicas disse:  ‘eu prometo que não me esqueço de ti e no dia em que a sorte me abraçar vou partilhá-la contigo, mas explica-me como raio fizeste isso?’ ao que ele apenas respondeu ‘Nós os indianos temos um dom.’ e foi embora.

Olhei de novo para o papel e o facto de estar ali escrito ‘Cristina’ no meio de um quadradinho de papel, sentado num banco de jardim de Hong Kong onde a maioria do pessoal nem sequer fala uma língua que se perceba, caramba fiquei abismado e as 8 horas de diferença para a tuga, que faziam com que fossem 3 da manhã para a Tini, não me impediram de lhe ligar para contar o que tinha acontecido. Não mais me separei daqueles quadradinhos de papel e se bem que raras vezes me lembro disto ainda hoje os tenho comigo (aqui em Luanda). 
Apesar de ter jogado umas duas ou três vezes no euromilhões no ano de 2007 a verdade é que não me saiu e o pobre Gulzar nunca mais me viu ou ouviu falar de mim nem do meu dinheiro, mas caso ele tenha mesmo um dom e só se tenha enganado no ano eu tenho o número de telefone dele.

Houve outras pessoas que num ou noutro momento da vida me conseguiram tocar na alma e deixar marca para a vida mas voltando ao dia de hoje... hoje fui ao Kero às compras com a Feliztini (mudei o nome dela há uns dias) e fizemos muitas compras cansativas e tudo o mais e andámos às turras um com o outro por causa dumas makas com a carne e com a moça carniceira. Quando estávamos a chegar com as compras ao carro, amuados um com o outro aparece uma pequena... não sei que idade terá ela (aqui nem sempre é fácil saber a idade duma criança apenas tirando-lhe as medidas, um miúdo mal nutrido pode ter metade do tamanho que devia) mas aparentava uns nove anitos, era muda e muito provavelmente também surda e fazia uns sons acompanhados pelos gestos que faziam com que a entendêssemos.
A primeira coisa que disse, passando a mão à frente da cara seguida por um sinal de fixe com o polegar e apontando para mim, era que eu sou um gajo bonitinho, como a Feliztini não percebeu ela repetiu mais duas vezes até que eu traduzi os gestos em palavras (agora que penso melhor se calhar a rapariga não é surda). Se descontar a minha avó e a minha mãe ela é uma das três ou quatro mulheres que alguma vez me disseram que sou bonitinho por isso fiquei logo a gostar daquela pequena. Depois fez um montão de gestos para nos explicar que estava ali para nos aliviar da entediante tarefa de colocar as compras dentro do carro e embora não tivesse tamanho para conseguir tirar os sacos do carrinho de compras nem para os colocar mais longe do que a porta da mala do Jimny começou logo a arrumar as tralhas que tenho sempre na pequena mala do carro. Exigiu que lhe déssemos para as mãos todos os sacos e sempre com um sorriso enorme no rosto e uma alegria contagiante lá foi pondo os sacos dentro do carro. Quando acabou a tarefa ainda fez um gesto passando a mão em frente do corpo todo seguido de um sinal de fixe e apontando para a Feliztini que eu interpretei como sendo um sinal de que ela se veste bem. No fim a Feliztini deu-lhe um pacote de bolachas de chocolate e 500Kz e fomos embora enquanto ela nos acenava. 
Ia no carro a caminho de casa e o sorriso daquela pequena que nada tem, não consegue falar e tem que ir para o parque do Kero para ganhar algum dinheiro aos nove anos não me saía da cabeça... baptizei-a na minha mente de ‘sorriso chocolate’.

Eu já vos disse que sou feliz, mas a mim a vida deu-me tudo o que precisava para ser feliz, para dizer a verdade deu-me bem mais do que eu precisava para ser feliz, muito mais do que preciso para viver e muito provavelmente bastante mais do que mereço. É bem possível que por cada euro que aquela pequena consegue eu consiga cem, já fiz algumas viagens e conheci outros mundos, por cada metro que ela já se afastou de sua casa é possível que eu tenha viajado quilómetros...
Nesta vida sou feliz mas numa outra vida, na próxima vida eu quero ser um sorriso chocolate, quero não ter nada e ser alegre, quero não ter nada e sorrir, quero não ter nada e conseguir alegrar tontos que tudo têm e andam carrancudos. Quero não ter nada e conseguir ser feliz.

Tenho pena de não andar sempre com a máquina fotográfica pois se a tivesse hoje de certeza que no cimo deste texto estaria um grande sorriso escarrapachado, um sorriso de dentes brancos que vos iria proibir de andar tristes ou carrancudos.
A existir um deus, imagino que se ele quisesse enviar um anjo para acordar uns tontos do sono em que vivem, esse anjo seria aquela pequena. Pena é que eu saiba que não demoramos muito para que o torpor volte e faça com que nada façamos para tentar mudar um pequeno pedaço do mundo que seja.

Ainda no início da viagem para casa, mal tínhamos saído do parque do Kero quando a Feliztini diz: ‘Tenho tanta pena daquela pequena, este mundo é tão injusto, apetecia-me levá-la connosco e ajudá-la.
Ao que eu respondi: “Sim, num mundo um pouco mais justo ter-lhe-íamos pelo menos perguntado quanto é que ela precisa de levar para casa quando vai para ali pedir... se calhar ela vai lá apenas para ganhar mil kwanzas e devíamos pelo menos dizer-lhe ‘olha, vai para a escola estudar que eu dou-te mil kwanzas todos os dias’, mil kwanzas por dia nós nem notávamos e para ela poderia ser a diferença para ter uma vida melhor.”
Uma lágrima ficou ali no canto do olho e ao olhar para o lado vi que no rosto da Feliztini já corriam umas quantas.

É pena que o egoísmo seja algo intrínseco de todos os seres, agarramo-nos demais aquilo que pensamos ser nosso, a verdade é que cada um apenas pensa em si e de vez em quando naqueles que ama e todos nós temos um sentimento de posse muito forte do qual é muito difícil que nos libertemos. A minha comida, a minha casa, o meu dinheiro, as minhas coisas. Mesmo tendo mil vezes mais do que aquela pequena não demos mais do que migalhas que nenhuma falta fazem, apenas damos aquilo que não custa perder. Em que mundo se pode permitir que alguém tenha mil vezes mais do que outros? Num mundo onde milhões de pessoas têm mil vezes mais do que eu e há biliões que têm mil vezes menos. Neste mundo, a viver num local onde o respeito pelo outro parece que nem sempre é importante por vezes dou por mim a pensar que até tenho um coração bom apenas porque deixei uns pequenos que vêm da escola atravessar a estrada e eles me agradecem sorridentemente mas caramba, para deixar pequenos atravessar a estrada nem coração é preciso ter, basta que se tenha uma consciência.
É óbvio que sei que a escola aqui provavelmente de pouco servirá a alguém que é mudo e possivelmente surdo, é possível também que se ela tivesse mil kwanzas preferisse ganhar outros mil em vez de ir à escola... mas pelo menos eu teria feito algo.
Quando voltar lá vou procurar aquela pequena, tentar dar-lhe algo mais, não sou a Madre Teresa e é muito provável que não seja eu a mudar a vida daquela pequena, ela não consegue falar e nós não a conseguimos perceber, nem sequer o nome dela conseguiremos saber, mas eu gosto dela.

Antes de deixar este mundo espero um dia poder tocar na alma de alguém e deixar marca, espero fazer algo por uma pessoa que não conheço, algo que esse alguém nunca esqueça e que faça realmente a diferença. 
Algo que me custe mas que seja bom.

Será que já ganhei a fortuna que o Gulzar Singh previa?

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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Dondo Trip




Hoje, numa viagem de trabalho passei pelo Dondo, uma pequena cidade da província do Kwanza Norte. 

Andava eu por lá a tirar umas fotografias ao rio quando passa por mim e pelo meu colega Eduardo, que foi comigo, um grupo de quatro marmanjos. Qual não é quando de repente e assim do nada alguém que eu não conheço de lado nenhum passou a ser a pessoa por quem, eu, mais consideração tenho neste mundo. Então não é que enquanto bebia uma cervejola e ia andando pelo caminho um deles, com a mão que tinha livre, saca o instrumento de fora e sem que nada o detivesse das outras duas tarefas (caminhar e emborcar o conteúdo da garrafa de cerveja pela goela abaixo) começou a libertar os fluídos corporais que tinha em excesso. Caramba, vocês já viram, o rapaz conseguia fazer as três coisas ao mesmo tempo o que já de si é uma acrobacia, no mínimo, de difícil execução mas traz também inúmeras vantagens. Para começar ia regando o caminho, que por ser de terra e estar um dia de calor imenso levanta pó, estando a terra humedecida não há pó, um favor que fez à comunidade. Depois o rapaz tinha pago pela cerveja e estando já cheio ele conseguiu, enquanto ia bebendo, criar no interior de si próprio espaço para a cerveja que restava na garrafa, um favor que fez a si próprio. Fez isto tudo sem abandonar por um instante que fosse os seus três amigos que, tenho como certo, muito prezam a sua companhia, um favor que fez aos amigos.

Naquele momento deu-me vontade de não deixar passar a oportunidade de conhecer tamanha personalidade mas, felizmente, de rompante atingiu-me na cabeça a ideia de que assim que eu o interpelasse ele se iria voltar para ver quem estaria a falar com ele (uma quarta tarefa que não tenho dúvidas conseguiria ainda fazer sem ter que interromper nenhuma das outras) e ao voltar-se poderia por instantes perder o controlo do jacto de liquido que estava a libertar e estando a voltar-se para mim eu corria sérios riscos de ser regado com liquido morno, o que numa tarde de calor, com o sol a queimar todos os pedaços de pele não cobertos e com a careca coberta de suor, presumo não ser nada de agradável.

Deixem-me dizer-vos que aqui por estas paragens é comum ver o zingarelho de um qualquer jovem a se aliviar voltado para a estrada ou senhoras a libertarem-se do que as aflige no passeio ou numa qualquer berma de estrada, não foi o instrumento do rapaz que me impressionou nem o facto de ele despudoradamente se libertar no caminho, isso é normal, foi mesmo o facto de ele conseguir fazer tudo em simultâneo.


A caminho de Luanda, a uns 112Km da cidade, uns 500m antes da cortada para Malange, vinha eu entretido na minha tarefa de conduzir, concentrado em desviar-me dos buracos da estrada (pobre Suzuki Jimny, perdeu pelo menos três anos de vida hoje, houve alturas em que pensei que ia rebentar ambos os pneus da frente ou partir o eixo da direcção, o raio dos buracos têm a mania de aparecer do nada sempre quando um gajo já vai a 100 ou 120Km/h, por vezes não dão grandes hipóteses) e dos camiões dos chineses (os chineses proliferam por estas paragens que nem coelhos, aconteceu-me hoje encontrar de uma só assentada quatro camiões de chineses em contramão a ultrapassar outros oito exactamente no momento em que nós decidimos estar a passar naquela estrada) quando os olhos atentos do Eduardo viram algo diferente e ele perguntou, ‘hei, o engenheiro já viu aquilo?’. Pois bem, era um bosque diferente, um bosque em que as pequenas ervas comem árvores grandes, havia até imbondeiros a ser completamente devorados pela gula daquelas pequenas folhas. Parece que alguém fez um gigantesco lençol de pequenas folhas e o atirou para cima do bosque, ou talvez tenha nevado folhas que ao cair, tal como a neve, cobriram o bosque por inteiro. Tirei umas fotos que pus no álbum (já antes pus umas outras sem vos dizer nada), mas não me atrevi a pôr os pés num bosque sem chão onde as folhas comem árvores... tenho a certeza que se me tivesse dado para entrar não estaria agora aqui pois teria sido devorado pelas folhas num instante. 
Tenho cá para mim que aquele bosque foi amaldiçoado por um qualquer kimbanda há milénios atrás e desde então aquelas folhas malditas comem tudo o que se lhes atravessa no caminho (ou também pode dar-se o caso de o rapaz, meu ídolo de que vos falei há poucas linhas atrás, passar por lá habitualmente e dever-se a isso o facto daquelas ervas crescerem tão viçosas).

Aqueles de vocês que quiserem ver as fotos vejam as últimas do album em https://picasaweb.google.com/117986880837828270606/FotosAngola

Não sei se volto,
Bernardo.

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