domingo, 16 de outubro de 2011

Sorriso Chocolate


Hoje conheci alguém que verdadeiramente me impressionou, desta vez, ao contrário de quando o disse no texto que escrevi há uns dias, digo-o sem qualquer sarcasmo na voz. 
Durante o curto tempo que já vivi não foram muitas as pessoas que me impressionaram de verdade. Não me consigo lembrar de muitas mas também é natural, eu não ando aí pela rua a tentar impressionar os outros e, como tal, tomo como natural que os outros não andem por aí a tentar impressionar-me mas por vezes acontece quando não estamos nada à espera. 

Lembro-me de um indiano que numa manhã de Maio de 2006, numa rua de Hong Kong, me confundiu com alguém conhecido e me falou em híndi (ou numa qualquer outra das restantes 21 línguas oficiais da Índia) e quando viu o meu olhar de estranheza lá me perguntou em Inglês se eu não era Indiano. Disse-me que eu era deveras parecido com um grande amigo dele. Sentei-me num banco de jardim com o homem e enquanto conversávamos ele escrevinhou umas coisas num papel e disse que tinha um dom. Dobrou o papel, pôs-mo na mão, pediu-me que a fechasse com força e a mantivesse bem fechada, depois foi fazendo perguntas:

- ‘como te chamas?’ – ‘Bernardo.’
- ‘que idade tens?’ – ’28.’
- ‘e de onde és?’ – ‘ de Portugal.’
- ‘és casado?’ – ‘ah, nunca assinei nenhum papel, nem nunca se fez nenhuma festa, mas sim, vivo com uma rapariga por isso acho que sou casado.’
- ‘e qual é o nome dela?’ – ‘ora, é um nome português, se eu o disser digo-o em português e o mais provável é que não percebas.’ – ‘está bem, mas diz-me o nome dela.’ – ‘Cristina.’
- ‘se tivesses um desejo que se pudesse tornar real, apenas um, qual era a coisa que mais querias neste mundo?’ – ‘oh, eu sou uma pessoa simples e o que quero é apenas ser feliz, não preciso ter dinheiro nem viajar, não quero ser importante nem ser influente, não quero ser rico nem quero ser famoso, quero apenas ter uma vida feliz.’
- ‘Diz um número entre um e dez’ – ‘sete.’
- ‘Abre a mão e vê o papel.’

O pequeno farrapo de papel que aquele desconhecido me deu para a mão, antes de eu lhe ter dito qualquer uma daquelas coisas, depois de desdobrado revelou ter escrito ‘Cristina’, ‘Happy Life’ e ‘28’.
Ele lá explicou que o 28 era a minha idade, Cristina o nome da minha mulher e Happy Life o meu desejo. Disse-me que 2007 seria o meu ano de sorte, daí eu ter escolhido o número sete, e que eu iria ganhar uma fortuna nesse ano e ele estava tão convencido disso que num outro papel escreveu o seu nome, Gulzar Singh, e o número de telefone dele na Índia. Mostrou-me umas fotografias de uns rapazes com diferentes deficiências e disse-me que na Índia ele dirigia um mosteiro onde acolhiam crianças desfavorecidas. Pediu-me encarecidamente que quando eu ficasse rico (no ano seguinte, 2007) não me esquecesse dele e fizesse uma contribuição para a instituição. Eu como céptico que sou nestas coisas místicas disse:  ‘eu prometo que não me esqueço de ti e no dia em que a sorte me abraçar vou partilhá-la contigo, mas explica-me como raio fizeste isso?’ ao que ele apenas respondeu ‘Nós os indianos temos um dom.’ e foi embora.

Olhei de novo para o papel e o facto de estar ali escrito ‘Cristina’ no meio de um quadradinho de papel, sentado num banco de jardim de Hong Kong onde a maioria do pessoal nem sequer fala uma língua que se perceba, caramba fiquei abismado e as 8 horas de diferença para a tuga, que faziam com que fossem 3 da manhã para a Tini, não me impediram de lhe ligar para contar o que tinha acontecido. Não mais me separei daqueles quadradinhos de papel e se bem que raras vezes me lembro disto ainda hoje os tenho comigo (aqui em Luanda). 
Apesar de ter jogado umas duas ou três vezes no euromilhões no ano de 2007 a verdade é que não me saiu e o pobre Gulzar nunca mais me viu ou ouviu falar de mim nem do meu dinheiro, mas caso ele tenha mesmo um dom e só se tenha enganado no ano eu tenho o número de telefone dele.

Houve outras pessoas que num ou noutro momento da vida me conseguiram tocar na alma e deixar marca para a vida mas voltando ao dia de hoje... hoje fui ao Kero às compras com a Feliztini (mudei o nome dela há uns dias) e fizemos muitas compras cansativas e tudo o mais e andámos às turras um com o outro por causa dumas makas com a carne e com a moça carniceira. Quando estávamos a chegar com as compras ao carro, amuados um com o outro aparece uma pequena... não sei que idade terá ela (aqui nem sempre é fácil saber a idade duma criança apenas tirando-lhe as medidas, um miúdo mal nutrido pode ter metade do tamanho que devia) mas aparentava uns nove anitos, era muda e muito provavelmente também surda e fazia uns sons acompanhados pelos gestos que faziam com que a entendêssemos.
A primeira coisa que disse, passando a mão à frente da cara seguida por um sinal de fixe com o polegar e apontando para mim, era que eu sou um gajo bonitinho, como a Feliztini não percebeu ela repetiu mais duas vezes até que eu traduzi os gestos em palavras (agora que penso melhor se calhar a rapariga não é surda). Se descontar a minha avó e a minha mãe ela é uma das três ou quatro mulheres que alguma vez me disseram que sou bonitinho por isso fiquei logo a gostar daquela pequena. Depois fez um montão de gestos para nos explicar que estava ali para nos aliviar da entediante tarefa de colocar as compras dentro do carro e embora não tivesse tamanho para conseguir tirar os sacos do carrinho de compras nem para os colocar mais longe do que a porta da mala do Jimny começou logo a arrumar as tralhas que tenho sempre na pequena mala do carro. Exigiu que lhe déssemos para as mãos todos os sacos e sempre com um sorriso enorme no rosto e uma alegria contagiante lá foi pondo os sacos dentro do carro. Quando acabou a tarefa ainda fez um gesto passando a mão em frente do corpo todo seguido de um sinal de fixe e apontando para a Feliztini que eu interpretei como sendo um sinal de que ela se veste bem. No fim a Feliztini deu-lhe um pacote de bolachas de chocolate e 500Kz e fomos embora enquanto ela nos acenava. 
Ia no carro a caminho de casa e o sorriso daquela pequena que nada tem, não consegue falar e tem que ir para o parque do Kero para ganhar algum dinheiro aos nove anos não me saía da cabeça... baptizei-a na minha mente de ‘sorriso chocolate’.

Eu já vos disse que sou feliz, mas a mim a vida deu-me tudo o que precisava para ser feliz, para dizer a verdade deu-me bem mais do que eu precisava para ser feliz, muito mais do que preciso para viver e muito provavelmente bastante mais do que mereço. É bem possível que por cada euro que aquela pequena consegue eu consiga cem, já fiz algumas viagens e conheci outros mundos, por cada metro que ela já se afastou de sua casa é possível que eu tenha viajado quilómetros...
Nesta vida sou feliz mas numa outra vida, na próxima vida eu quero ser um sorriso chocolate, quero não ter nada e ser alegre, quero não ter nada e sorrir, quero não ter nada e conseguir alegrar tontos que tudo têm e andam carrancudos. Quero não ter nada e conseguir ser feliz.

Tenho pena de não andar sempre com a máquina fotográfica pois se a tivesse hoje de certeza que no cimo deste texto estaria um grande sorriso escarrapachado, um sorriso de dentes brancos que vos iria proibir de andar tristes ou carrancudos.
A existir um deus, imagino que se ele quisesse enviar um anjo para acordar uns tontos do sono em que vivem, esse anjo seria aquela pequena. Pena é que eu saiba que não demoramos muito para que o torpor volte e faça com que nada façamos para tentar mudar um pequeno pedaço do mundo que seja.

Ainda no início da viagem para casa, mal tínhamos saído do parque do Kero quando a Feliztini diz: ‘Tenho tanta pena daquela pequena, este mundo é tão injusto, apetecia-me levá-la connosco e ajudá-la.
Ao que eu respondi: “Sim, num mundo um pouco mais justo ter-lhe-íamos pelo menos perguntado quanto é que ela precisa de levar para casa quando vai para ali pedir... se calhar ela vai lá apenas para ganhar mil kwanzas e devíamos pelo menos dizer-lhe ‘olha, vai para a escola estudar que eu dou-te mil kwanzas todos os dias’, mil kwanzas por dia nós nem notávamos e para ela poderia ser a diferença para ter uma vida melhor.”
Uma lágrima ficou ali no canto do olho e ao olhar para o lado vi que no rosto da Feliztini já corriam umas quantas.

É pena que o egoísmo seja algo intrínseco de todos os seres, agarramo-nos demais aquilo que pensamos ser nosso, a verdade é que cada um apenas pensa em si e de vez em quando naqueles que ama e todos nós temos um sentimento de posse muito forte do qual é muito difícil que nos libertemos. A minha comida, a minha casa, o meu dinheiro, as minhas coisas. Mesmo tendo mil vezes mais do que aquela pequena não demos mais do que migalhas que nenhuma falta fazem, apenas damos aquilo que não custa perder. Em que mundo se pode permitir que alguém tenha mil vezes mais do que outros? Num mundo onde milhões de pessoas têm mil vezes mais do que eu e há biliões que têm mil vezes menos. Neste mundo, a viver num local onde o respeito pelo outro parece que nem sempre é importante por vezes dou por mim a pensar que até tenho um coração bom apenas porque deixei uns pequenos que vêm da escola atravessar a estrada e eles me agradecem sorridentemente mas caramba, para deixar pequenos atravessar a estrada nem coração é preciso ter, basta que se tenha uma consciência.
É óbvio que sei que a escola aqui provavelmente de pouco servirá a alguém que é mudo e possivelmente surdo, é possível também que se ela tivesse mil kwanzas preferisse ganhar outros mil em vez de ir à escola... mas pelo menos eu teria feito algo.
Quando voltar lá vou procurar aquela pequena, tentar dar-lhe algo mais, não sou a Madre Teresa e é muito provável que não seja eu a mudar a vida daquela pequena, ela não consegue falar e nós não a conseguimos perceber, nem sequer o nome dela conseguiremos saber, mas eu gosto dela.

Antes de deixar este mundo espero um dia poder tocar na alma de alguém e deixar marca, espero fazer algo por uma pessoa que não conheço, algo que esse alguém nunca esqueça e que faça realmente a diferença. 
Algo que me custe mas que seja bom.

Será que já ganhei a fortuna que o Gulzar Singh previa?

...