No Domingo passado fomos à praia das Palmeirinhas.
Aquilo é logo ali, bem mais perto do que o Sangano ou Cabo Ledo, logo depois dos Ramiros, quando acabamos de passar pelo saco dos Flamingos, onde começa o braço de terra que é o Mussulo basta virar à direita e passado uns metros de estrada de terra, a primeira praia que vemos é a das Palmeirinhas.
Fica 100Km mais perto que Cabo Ledo. Para quem é lento das ideias e ainda não sabe onde é o meu telemóvel fez o favor de pintar um risco num mapa e ainda dá para partilhar esse risco com o mundo inteiro.
Maravilhosos tempos estes em que vivemos, com 100€ podemos comprar uma geringonça com um ecrã imenso e que tem um bichinho chamado android lá dentro que faz coisas maravilhosas. O meu pintou um risco no mapa, disse-me a velocidade a que andei e fez um gráfico com as elevações e depressões do terreno, posso vê-lo no google maps e ainda me deixa ver a viagem à velocidade a que fui no Google Earth, só é pena que o meu carro tenha andado mais depressa do que a velocidade da net aqui em Angola pelo que não se vê nada de jeito no Google Earth mas fiquei maravilhado com o Google My Tracks.
Fica aqui o link com o percurso entre a Samba e a praia das Palmeirinhas.
A praia das Palmeirinhas tem muita areia, muita água, muito sol, mas não tem palmeirinhas desenganem-se aqueles que pretendem procurar palmeirinhas.
Estivemos a nadar e a apanhar sol até que a dado momento alguém grita 'Olha ali um golfinho!!', eu olhei e não é que vi mesmo um golfinho a nadar logo ali, a poucos metros da areia? Os golfinhos são um animal que tem um efeito estranho nas pessoas. Não são como uma simples sardinha, ou um arenque, nada disso, ficámos todos maravilhados com os golfinhos, fomos para mais perto da água e ficamos ali com um sorriso parvo na cara apenas porque os golfinhos estão ali a golfinhar na água como sempre fazem. Tenho a certeza que estavam apenas a pensar em sardinhas e não foram ali para nos cumprimentar nem para nos alegrar, mas o facto de vermos aqueles lombos imensos a aparecer fora da água com a barbatana dorsal a aparecer primeiro enche-nos de emoção, ficamos alegres com o peito cheio de uma sensação de felicidade. Vimos um golfinho, depois eram três, afinal já eram seis, e dez, não, são doze. Ficamos com os olhos colados na água enquanto uma dúzia de golfinhos passava por ali.
- 'Olha ali, olha ali mais. Estão ali uns cinco.' - e todos olhávamos para aquele lado.
- 'Um deu um salto ali, viste?' - Aqueles que já só viam a espuma branca na água sentiam-se frustrados por terem perdido um salto (não houve mais que dois ou três saltos), os que viram sentiam-se um nadinha superiores - 'Ena, deu um salto enorme, saiu todo fora da água.'
Uma ou outra pessoa gritava - 'Saiam da água, pode ser tubarões, saiam da água.'
Um outro dizia - 'É uma orca, a barbatana estava dobrada e caída, são orcas.'
Mas na verdade eram golfinhos.
Dei uma dúzia de marretadas na cabeça por não ter levado a máquina fotográfica, ando todos os dias com a máquina e no dia em que o mar está cheio de golfinhos nada. Espero que não demore muito para que a Google invente o Google Head, dispositivo que instala uma ranhura para um cartão de memória na nuca e permite filmar com os olhos e partilhar sentimentos e emoções com quem quisermos.
A esta altura dizem vocês:
- Bah, golfinhos? Eu já vi golfinhos no ZooMarine, e no SeaLife, e saltavam e até equilibravam bolas na ponta do focinho e passavam pelo meio de argolas... vejo golfinhos quando me apetece, até na televisão se for preciso.
Garanto-vos que não tem nada a ver com esses encontros com hora marcada, eu também já vi espetáculos com golfinhos e também vejo o Odisseia e o National Geographic de vez em quando mas um encontro espontâneo é diferente, eles não foram ali porque alguém os obrigou, não foram ali porque nós estávamos lá, é como a diferença entre ir ao Zoo ver uma zebra ou estar sentadinho a piquenicar no mato e de repente passar uma manada de zebras mesmo à frente. É como a diferença entre ver um veado no Parque Biológico de Gaia ou estar descansadinho a dormitar numa clareira e passar uma família de veados bem à frente dos nossos olhos. Já fui à praia milhares de vezes, esta foi a primeira vez que vi golfinhos na praia e é diferente.
...
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
falar à toa...
Ele estava descansadinho a ler uma revista quando ela se vira e diz:
Ela (a falar à toa): - Sabes, agora que já somos ricos se calhar podemos comer caviar, estava a pensar e neste natal, vamos comprar dois frasquinhos, um para a casa da minha mãe e outro para casa da tua, que achas?
Ele (sensato): - Tás bem da moleirinha mulher? Sabes que cada boião destes deve custar uns 300 euros ou assim? ...
Ela (relutante): - ah, eu pensei que fosse práí uns 70 euros...
Ele (enquanto lê): - 'Ovas de esturjão, caviar Beluga, 625€/30g. Ovas de salmão 17,5€' - Tens mesmo a certeza de que queres gastar 1300€ e depois cada um de nós come 3g de caviar? Ou é melhor encher o bandulho com ovas de salmão?
Ela (arrependida): - ah bem.... se calhar ainda não estamos assim tão ricos.
...
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
'Isso é uma paca.'
Quem vai do Waku Kungo para o Dondo, porque se enganou numa qualquer estrada e queria era ir parar a Catete, passa por uma série de pequenos kimbos e vai vendo pessoal a vender peixes e animais de caça na beira da estrada, como em muitas outras estradas de Angola. A mim também aconteceu e ia a passar por um desses kimbos quando digo:
- 'Olha ali um gajo a vender um coelho, queres um coelho?'
- 'Não é nada um coelho pá, é outro animal qualquer, mas não é um coelho.' - diz o meu companheiro de viagem.
- 'Ah, pois... aquele não tinha orelhas.'
Uns quilómetros à frente estamos a passar por um outro vendedor de beira de estrada e digo eu:
- 'Eh pá, agora vou passar devagarinho, vê lá se não é um rato gigante que o men está a vender?'
- 'Não, não é um rato.'
- 'Caramba, o próximo bacano que vir a vender um rato vou parar e perguntar que bicho é esse.'
Andámos mais uns quilómetros valentes até que numa aldeia estava um miúdo na beira da estrada com um coelho-rato nas mãos para nos tentar a parar e comprar o bicho. Eu parei.
- 'Eh puto, diz-me lá que bicho é esse.'
O miúdo ficou a olhar com um ar bué estranho, e eu do alto da minha arrogancia achei que o pequeno talvez não falasse português, mas ataquei de novo.
- 'Miúdo, eu não te vou comprar esse bicho porque não me ia amanhar a esfolá-lo nem a desmanchar a carne, mas dou-te 200 paus se me disseres o nome desse animal que queres vender.'
O puto, com ar de quem acha bué esquisito que alguém não saiba as coisas básicas da vida e até com uma pintinha de desprezo na voz por ver alguém tão crescido mas tão ignorante diz:
- 'Isso? Isso é uma paca.'
- 'Hã? Páca? é uma páca?'
- 'Hm hm.'
- 'Olha, mereces os 200 paus, deixa cá ver... eh pá, hoje é o teu dia de sorte, não tenho notas de 200 por isso vou ter que te dar esta de 500 paus.'
Ele ficou todo contente e eu continuei.
- 'Puto, diz-me lá mais uma coisa, quanto é que custa uma paca?'
- 'Quê?'
- 'Quanto é que tu estás a pedir pela paca?'
- '1700 Kz.'
| Ngombo com a sua paca |
Nisto apareceu um bacano mais velho, com uns vinte e alguns anos que não sei se era pai ou irmão do puto e diz:
Grande - 'Tá a faltar aí.'
Puto - 'Não.'
Grande - 'Tá a faltar, não tá aí todo.'
Puto - 'Ele não vai levar.'
Eu reparei que o mais velho tinha um arco (sim um arco daqueles de lançar flechas).
- 'Xê, és tu que caças as pacas?'
- 'Sim.'
- 'Com esse arco? Atiras uma flecha e acertas na paca?'
- 'Ya, assim.' - esticou a corda do arco e largou.
- 'Pôxa, posso tirar-te uma fotografia?'
- 'Podes.'
- 'Caramba, tu vais ali para o mato e a paca vai a passar no meio das ervas, tu atiras uma flecha e acertas-lhe?'
- 'Ya.'
- 'Isso é espantoso.'
| O caçador de pacas com o seu arco e flechas |
Tirei umas fotos e quando me estava a despedir do pessoal que estava ali perguntei:
- 'Eh puto, qual é o teu nome?'
- 'Ele é o Ngombo.' - disse o mais velho.
- 'E tu vives aqui na aldeia, é Ngombo?'
- 'Sim.'
- 'E onde é a tua casa Ngombo?'
- 'É lá em baixo.'
Eu tenho bué curiosidade de ver uma daquelas casas por dentro, de ver o que eles têm lá, e quase de certeza que eles me deixavam ver... mas achei que seria um nadinha abusador e como a casa era lá em baixo e não logo ali só disse para o mais velho:
- 'Ah... é lá em baixo?'
- 'Ya.'
Foi só depois de entrar no carro e arrancar que me lembrei de tudo o que esqueci. Eu tinha dois pacotes de bolachas, um de batatas fritas e vários de rebuçados no carro que eram do Ngombo mas eu esqueci de lhos dar. Esqueci de perguntar aquela gente como era a vida, o que achavam de viver ali e se eram felizes. Aquela aldeia não tem luz (nenhuma, nem pública nem nas casas), não há electricidade, não têm água nem esgotos, não há gás... Eu nasci num tempo em que já não sabemos viver sem esses luxos que se tornaram necessidades, não sei como é viver sem electricidade, sem saneamento e sem um fogão... como se cozinha? toda a gente acende uma fogueira todos os dias?
Gostava de saber o que eles pensam da vida quando vivem em condições nas quais, segundo os padrões daí da parte de cima do mundo, faltam as necessidades mais básicas. E uma vez que na parte de cima do mundo as pesoas andam um pouco agastadas com a vida e descontentes deveria ter tentado descobrir como se sentem as pessoas que vivem ali.
Acho sinceramente que já vai sendo tempo de alguém inventar uma forma objectiva de medir a felicidade. Nos dias de hoje em que já podemos medir o peso e saber quão gordos ou magros somos, medir a altura e saber se somos grandes ou pequenos já era para podermos medir a felicidade e tal como poderia perguntar ao Ngombo quanto calça para saber se tem os pés grandes poderia também perguntar quanto felicia para saber se o rapaz é mais feliz ou mais triste. E ainda que não houvesse uma forma objectiva de medir a felicidade já devia, pelo menos, alguém ter inventado uma forma subjectiva de a medir, tal como inventaram o Q.I. para medir a inteligência podiam inventar um Q.F. para medir a felicidade... eu próprio já o teria feito, não fosse o pequeno inconveniente de não saber quais as perguntas certas para colocar no teste, mais dificil ainda seria descobrir as respostas certas. Peço a um de vocês que por favor arranje forma de medir a felicidade.
Com o medidor de felicidade nas mãos poderei saber se são aquelas pessoas sem nada mais felizes ou mais tristes que as daí de cima que, ainda que não tenham tudo, não se dão conta de quanto têm.
Durante a viagem decidi que um dia vou experimentar, um dia que não vem longe vou viver numa daquelas aldeias de casas de tijolo de barro com telhado de colmo (não gosto das aldeias com casas de telhado de chapa) durante uma semana, vou pagar para ir trabalhar (ou atrapalhar) com eles, seja no campo ou na caça e vou acordar, almoçar, jantar, conversar e dormir com eles e um dia vou saber como se vive na África verdadeira sem nada a não ser dois bracinhos e duas perninhas para fazer a vida e talvez escreva aqui sobre a experiência.
Espero que não seja tarde de mais para que um dia alguém me pergunte o que quero ser quando for grande (ou pelo menos maior, ou talvez mais velho) e eu possa responder que quero ser explorador. Quero ir de Luanda a Maputo, de Maputo a Mombasa, de Mombasa a Yaounde e de Yaounde ao Cabo, de carro, de bicicela ou a pé e pelo caminho parar e conhecer as pessoas, demorar 10 anos a fazer a viagem, mas conhecer e ser explorador.
Hoje deixo-vos com uma música de uma das minhas bandas favoritas... dêm uma ouvidela aqui.
Cause it's my intention
to not let the good life
and good times pass me by
P.S. - isto de ser explorador é apenas um estado de espírito. Um lingrinhas como eu morria de fome e sede dois dias depois de deixar a civilização.
...
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Velocidade Terminal
Aceleração: 9,81 m/s2
Uma aceleração de 9,81m/s2 significa que, a cada segundo que passa a velocidade aumenta 9,81 m/s o que é quase o mesmo que dizer que aumenta 35 Km/h por cada segundo. Esse é o valor da aceleração da gravidade terrestre, uma força que é exercida sobre nós, durante todo o tempo, pelo nosso querido planeta.
Altitude: 4300 m
Quando subimos a 4300 m de altitude (de avião) e decidimos saltar cá para baixo em queda livre a aceleração da velocidade a que caímos é essa, em menos de 3 segundos já vamos a 100 Km/h e depois disso a força exercida pela resistência do ar faz com que a velocidade aumente mais lentamente até chegar quase aos 200 Km/h.
Velocidade: 200 Km/h
Esta é a velocidade terminal para um ser humano que cai de barriga com braços e pernas esticadas. A resistência do ar exerce uma força contrária à da gravidade e aos 200 Km/h esta faz com que a velocidade a que caímos deixe de aumentar.
Duração: 1 minuto
Em menos de um minuto já descemos até aos 1500 m, altitude à qual o para-quedas é aberto e tudo se torna mais calmo, suave e relaxado apesar de, ainda assim, ser um nadinha assustador para quem pela primeira vez tira os pés do chão.
Nestas férias deu-me para voar, já antes vos tinha dito que queria voar e uma vez que tudo o que voa corre sérios riscos de, mais tarde ou mais cedo, acabar por cair achei por bem que deveria aprender a cair antes de aprender a voar.
Fui até ao aeródromo de Braga onde, após 5 minutos de instrução na qual me disseram que deveria agarrar-me aos ombros, com a cara voltada para o lado e as pernas dobradas para trás, pude cair do cimo do céu. Isto é tudo o que precisamos saber para podermos saltar com um marmanjo amarrado às costas. Depois de esperar um pouco fomos para o pequeno avião que nos levou até ao cimo dos céus de Braga, é excelente ver o mundo lá de cima , de dentro de um avião pequeno com bué vidro em que a vista de um mundo pequeno abarca quase todo o nosso campo de visão... depois de uma subida de uns 10 ou 15 minutos a porta abriu-se e eu e o marmelo que levava às costas arrastá-mo-nos para o lado de fora. Eu na posição que tinha aprendido na instrução e ele em cima de uma pequena plataforma perto da asa.
Quando estamos ali, assim pendurados no ar, na asa de um avião que está a voar, a adrenalina sobe, as endorfinas começam a atacar o cérebro e... não sei o resto porque não percebo nada de hormonas mas sei bem que ficamos alterados, mas enquanto estamos na nossa posição natural temos a noção que o mundo está lá em baixo e o nosso olhar no horizonte, como acontece durante a maior parte da vida e até aí é tudo normal, ou quase. Estamos assim por uns segundos até que o emplastro que levamos nas costas, sem qualquer aviso e sem que saibamos quando o vai fazer, se inclina e começamos a cair. É nesse momento pelo qual esperávamos mas do qual ainda não estávamos à espera que sentimos um imenso cagaço, pelo menos na primeira vez suponho de deve acontecer a toda a gente, e por mais que quiséssemos ou gostássemos de fazer uma cara bonitinha naquele instante, para ficarmos bem na fotografia, isso não é possível. A partir do momento em que ele se vira deixamos de controlar o nosso rosto.
Não é possível eu dizer-vos o que se sente naquele momento, quando nos sentimos cair a uma velocidade estonteante, sem nada debaixo de nós mas vou tentar explicar o melhor que sei.
Quando nos viram os olhos para a terra e notamos que deixámos de ver o horizonte para vermos apenas o mundo inteiro bem ali, à frente dos olhos, aquilo que se sente é que já caímos demais, o nosso espírito não conseguiu acompanhar a queda e ficou ali, na asa do avião, esqueceu-se de vir connosco e daí sentirmos uma impressão no peito, uma quase dor, como se nos esmagassem o peito, como se a vida nos fugisse ou nós fugíssemos dela. Felizmente o nosso espírito não demora mais do que umas centésimas de segundo para reparar que nós já fomos e depressa volta para dentro do peito, passa aquela quase dor e aí damos-nos conta do que está a acontecer. Estamos a cair a uma velocidade alucinante de uma altura imensa e apercebêmos-nos de que certamente iremos morrer e ainda por cima o anormal que levamos em cima inclina-nos para que viajemos mais depressa vá-se lá saber porquê. Tão rápido quanto o nosso cérebro, que naquele momento não está a funcionar a 100%, se lembre que o gajo que vai em cima de nós tem um para-quedas que nos vai permitir sobreviver à queda o medo passa e podemos apenas apreciar o momento... sentimos o ar empurrar-nos para cima e não vemos o mundo aproximar-se nem um bocadinho, tudo continua igual, lá no fundo, afinal... se calhar... estamos a voar, vamos poder ficar ali no ar o tempo que quisermos, a voar como se fossemos um pássaro ou um insecto, só com mais vento na cara, tanto que por mais que tentemos não conseguimos mudar a nossa expressão facial, tanto vento que nos empurra os braços para cima, as pernas para cima, a partir do momento em que abrimos os braços deixamos de controlar os movimentos, já não controlamos o rosto, nem os braços, nem as pernas é o vento que nos domina, quem põe os braços na posição que ele quer e as pernas, é ele quem nos dá forma ao rosto... e é justamente quando estamos a apreciar mais aquele voo, quando já estamos a curtir à brava o facto de estarmos a cair e já nem sequer parece tão mau assim se por acaso nos encontrarmos com o solo que o estafermo abre o para-quedas e acaba com a diversão. Sentimos um puxão forte e de repente o mundo já está outra vez lá em baixo e os olhos conseguem ver o horizonte, passamos a descer em silêncio, numa viagem muito mais calma mas ainda assim sentimos-nos fragilmente presos pelos ombros e o mundo ainda bem lá em baixo e ficamos com um pouco de receio de que possamos cair. Vamos descendo devagar até começarmos a ver as árvores aproximarem-se e dá a sensação que vamos bater com os pés num telhado, ou na copa de uma árvore (isso talvez seja só eu porque tenho umas pernas compridas) e parece-nos que afinal estamos a descer depressa demais e... quando damos conta já temos chão debaixo dos pés de novo e a viagem acabou... mas é alucinante, uma viagem extraordinária, isso vos garanto.
Para aqueles de vocês que um dia queiram experimentar podem ir até www.syfuncenter.com.
Um bacano muito porreiro saltou para filmar, podem encontrar um pedaço do filme em
http://www.youtube.com/watch?v=1VLqrxlCCfE, não esperem que eu tenha ficado bonitinho e não estranhem caras de assustado ou de anormal, como disse, as expressões faciais estavam completamente fora do meu controlo.Encrontram algumas fotos em https://picasaweb.google.com/117986880837828270606/SaltoTandem.
Em conversa com aquele jovem que vêem saltar às minhas cavalitas vim a saber que ele tinha estado em Angola e tinha chegado à tuga há apenas alguns dias. Em breve irá voltar pois estava a criar, ou a dar formação, ou a iniciar o clube de paraquedismo aqui em Angola.
Hã? Quê? Perguntas se o vou fazer de novo?
Podes ter a certeza que sim.
Bernardo.
sábado, 11 de agosto de 2012
Little Big Adventure
Olá.
Não quero que pensem que estou a ressuscitar este blog dos
mortos, ele está morto e bem morto, mas por vezes os mortos também aparecem.
Aqui há uns dias uma aventura apanhou-me ali na estrada e
fiquei a pensar que é tão caricata que caso eu ainda me dedicasse à escrita havia de escrever
sobre ela, mas por outro lado, se matei o blog há meio ano atrás não fazia
grande sentido contar-vos as coisas que me acontecem deste lado do mundo. Andei
uns dias com vontade de a escrever e consegui controlar-me mas hoje estou sem
nada para fazer, num avião que já atrasou hora e meia por isso vou escrever.
Como ia dizendo, aqui há uns dias, ia eu todo pimpão no meu
carrito ali na Av. Comandante Valódia já a chegar à Alameda, aquilo é uma
estrada que naquela zona tem duas faixas mas como essas duas faixas estão
sempre paradas cheias de veículos que querem virar à direita para a Alameda
toda a gente sabe que quem quer seguir em frente vai pela terceira faixa, que
não existe fisicamente mas existe num plano espiritual. Todas as pessoas que
conhecem a rua sabem que é assim, a terceira faixa, para quem quer ir em frente
apesar de não se ver existe e por vezes até são os polícias que fazem uma
separação com aquelas coisas de plástico laranja e criam a terceira faixa para
aqueles que querem seguir em frente.
Pois bem, ia eu todo contente, com um sorriso na cara e
instintivamente vou para a terceira faixa, levava carros à frente e carros
atrás, o polícia que estava no cruzamento com a Alameda a coordenar o trânsito
mandou-me parar para que andassem aqueles que estão a circular na Alameda. Eu
parei, ele viu-me ali tão contente que pensou para si próprio ‘Espera aí que já
te tiro esse sorriso da cara’. Vai na minha direcção e pede-me a carta, era um
gajo novo, mais novo do que eu (ou talvez eu já não seja novo).
- ‘Fiz alguma coisa de errado?’ - perguntei enquanto lhe entregava a carta.
- ‘Você está a ocupar a faixa de rodagem contrária.’
- ‘Quê? Estás a gozar
comigo irmão?’
- ‘Aqui só tem duas faixas e o Sr. está a ocupar a faixa do trânsito
que vem em sentido contrário. O bilhete de identidade, tens?’ – Como eu já
apanhei uns tiques mwangolés na fala grande parte das pessoas acham que sou
angolano, eu procurei pelo passaporte e procurei e procurei e comecei a ter
suores frios… caramba, ser apanhado sem passaporte… isso dá para deixar ali no
bolso do outro um dinheirão e isso é se ele simpatizar comigo… andei à
procura e à procura… mas o passaporte estava na minha mochila que tinha deixado
no escritório.
- ‘Encoste ali e venha aqui ter comigo.’
Eu encostei o carro e ele mandou encostar também os três carros
que estavam atrás de mim. Fui ter com ele e disse:
- ‘Irmão, tu estás a brincar, não estás? Eu passo aqui todos
os dias, toda a gente faz isto, eu sei que só há duas faixas mas essas duas
querem virar à direita e quem vai em frente faz sempre assim e tem dias em que
há quatro filas irmão. Não me compliques. Olha estes todos aqui a passar, toda
a gente faz isto.’ - Dizia eu, enquanto apontava para uma terceira fila já com
dezenas de carros exactamente no sitio onde eu tinha estado.
- ‘Olha, já mandei parar também aqueles todos, o bilhete de
identidade? Já encontraste?’
Eu não o tinha encontrado como é obvio mas não me descosi e
nisto apareceu o pessoal dos outros carros que o polícia tinha mandado encostar
e estavam todos a mandar vir com o polícia quando ele devolveu a multa que
substituía a carta de condução de um candongueiro. O rapaz arengou qualquer
coisa que não percebi na direcção do policia e ele ficou irritadíssimo – ‘Eu vou-te apanhar.’ -
disse o policia enquanto apontava para o rapaz.
Aqui vamos fazer uma pausa, para vocês que não sabem como se processam as burocracias
aqui deste lado do mundo tenho que vos explicar que, aqui, quando cometemos uma
infracção no trânsito o polícia pede logo a carta para que não possamos fugir e
só depois se discute a situação. Por norma as coisas resolvem-se amigavelmente com uns valores que variam dependendo do humor do policia, do aspecto do infractor e da gravidade da infracção. Já da última vez (antes desta) que me apanharam não consegui chegar a
acordo, o policia estava irredutivel num valor, a negociação correu mal e ele acabou por passar-me mesmo a multa. Pois bem, como aqui a morada de muitas
pessoas é a casa sem número na rua sem nome apontar matriculas ou ficar com os
dados de alguém não serve de nada, então, os polícias mal apanham a carta na
mão metem no bolso e quando nos passam uma multa ficam com a carta e nós com a multa. A multa
substitui a carta de condução e supostamente depois de a pagarmos na
Direcção de Viação e Trânsito a carta é-nos devolvida. Ora, dessa última vez
que me passaram a multa esta foi paga no dia seguinte e a carta ainda não estava na DVT.
Andei dois meses com uma multa e o comprovativo do pagamento da mesma enquanto
um rapaz do escritório foi uma dezena de vezes à DVT para ir buscar a carta que teimava não aparecer, era sempre necessário algo mais, um papel de sabe deus o quê ou esperar mais uns dias. Por alturas destas peripécias que agora vos conto eu tinha a carta há três dias e já estava a vê-la desaparecer de novo.
Quando temos uma multa porque
a carta anda no bolso de um outro polícia ou perdida na DVT o polícia que nos manda encostar não tem
carta para apreender e então acontece que chateiam bem menos e mandam seguir
com mais facilidade do que se a tivéssemos. Como deste lado do mundo tudo
se consegue comprar e tudo se vende os candongueiros nunca andam com a carta,
têm sempre uma multa que a substitui durante umas semanas. Por isso é que
o polícia da aventura que vos conto devolveu uma multa e não uma carta de
condução ao candongueiro.
Mas voltando à aventura, o policia naquele momento em que
estava irritado devolveu as cartas de condução ao pessoal todo menos a quem?
Pois… a minha ficou lá no bolso.
- ‘Anda, eu vou contigo, onde é que está o teu carro? Vamos
virar ali à esquerda para o São Paulo, aquele gajo insultou-me e eu vou
apanhá-lo.’
- ‘Então e a minha carta? Devolveste a todos e não me dás a
minha?’
- ‘Mas não ouves o que eu digo? Eu vou contigo.’
Entramos no carro e começo a conduzir.
- ‘Vira aqui à esquerda, vamos para o São Paulo.’
- ‘Mas aqui é que é proibido virar.’
- ‘Mas sou eu que te estou a mandar, não te vou multar se te
mando virar aqui, vira à esquerda. Aquele gajo insultou-me e nós vamos
apanhá-lo.’
Lá fomos nós, havia uns carros à nossa frente e eu ia
descansadinho da vida atrás de quem vai à frente como sempre faço quando ele
faz uma cobra a ondular com o braço.
- ‘Hã? Viro aqui à direita?’
- ‘Não ginga pelo trânsito, rápido, vamos mais depressa.’
Tentei fazer conversa para ver se ganhava a simpatia do
polícia que ia ali ao meu lado mas a verdade é que eu sou uma nódoa a fazer conversa.
- ‘Eh pá, mas tu sabes para onde o gajo foi é?’
- ‘Foi para o São Paulo.’ E nisto lê a matricula da ximbunga
que tinha apontado no braço.
Chegamos ao São Paulo e vamos em direcção às traseiras do
Cine São Paulo e, como sempre, havia uma confusão enorme de trânsito ali, iam
umas ximbungas à frente e ele pergunta:
- ‘Consegues ver a matricula desse táxi aí?’
- ‘Hmm… não, o carro da frente tapa.’
- ‘Espreita aí, não consegues mesmo ver?’
- ‘Não, mas se quiseres podes sair para ver e eu apanho-te
mais à frente.’
- ‘É que o gajo não me pode ver, senão foge de novo.’ – disse
ele enquanto ia saindo do carro.
Eu fiquei parado no trânsito e ele foi andando… e daí a
pouco quando avancei e cheguei ao cruzamento mesmo nas traseiras do Cine São
Paulo já não o via. Caramba… eu ali, o homem com a minha carta… tinha que o encontrar
ou ficava sem carta para sempre.
Vou tentar descrever como é aquela zona… não há uma forma
simpática de ilustrar aquela zona e vai parecer uma descrição racista e
preconceitosa mas vou tentar fazê-lo da forma mais cordial possível. O São
Paulo é como que um dos locais onde acaba a Luanda cosmopolita com pessoas de
todas as cores e nacionalidades e começa a Luanda negra, uma cidade que a
maioria dos estrangeiros não conhece e onde tem receio de ir. Para lá do São Paulo
fica a Cuca e o Cazenga, bairros que a maioria dos estrangeiros que vivem nesta
cidade e que são muitos não frequentam nem conhecem. Enquanto que na cidade vemos europeus, norte e sul americanos e asiáticos por todo o lado, seja a pé ou de carro depois do São
Paulo isso é muito menos comum e as pessoas, por norma, estão muito menos arranjadas
do que as que se vêm no centro da cidade. Eu já dei uns passeios a pé ali pela
zona do mercado do São Paulo, onde o chão sujo está coberto de roupas, sapatos,
detergentes, bolachas, frutas e tudo o mais e as ruas estão cheias de gente,
muitas vendedoras sentadas no chão e muita gente a passar ou à espera de táxi.
Vocês que vivem aí na parte norte do nosso planeta estão já a imaginar uma
feira como as daí da tuga mas não é bem o mesmo. Passamos por bancas que vendem
peixe ou carne que estão ali à temperatura ambiente completamente cobertos de
moscas e quando passamos vemos um enxame de moscas a levantar voo durante dois
ou três segundos para poisar logo assim que nos encontramos a uma distância que
elas considerem segura. É uma zona de cheiros muito intensos e posso dizer-vos
que os tugas que trabalham comigo no escritório têm medo e nunca passaram por
ali a pé.
Pois bem, eu vi-me ali sozinho e sem saber do polícia que
tinha a minha carta. Estacionei e fui dar uma volta à procura dele… não foi difícil
de encontrar, há uma rua que vai das traseiras do Cine São Paulo para a estrada
principal e que fica completamente coberta de iáces, ninguém anda enquanto eles
não enchem o táxi e arrancam, uma por uma, demora-se uma meia hora para
percorrer aqueles dez metros de estrada de carro. Felizmente eu estava a
fazê-los a pé quando vejo um polícia a arrastar um marmanjo, já levava uma
multidão atrás e um outro polícia ao lado. Eu tentei tocar-lhe no ombro mas ele
estava ocupado a arrastar o outro marmelo que tentava evitar ser arrastado enquanto se ia queixando e pedindo para o largarem, o polícia que acompanhava o meu policia disse
que não era boa altura e eu limitei-me a segui-los. Arrastou-o até à esquadra móvel do São Paulo enquanto
ele ia tentando escapar e se queixava de ter sido agredido. Um monte de gente a
ver a confusão e a olhar para mim, que não sendo propriamente branco era a
pessoa mais engomadinha que ali estava e estava bem no meio da confusão. Algum tempo depois conseguiram enfiar o rapaz para dentro da esquadra móvel e depois de tudo explicado aos colegas que estavam de serviço lá houve um momento
mais calmo e eu pedi a carta ao polícia, ele disse-me que tivesse calma e que
fosse buscar o carro pois ele próprio iria levar o meliante para a esquadra. Lá
vou eu buscar o carro com a esperança de conseguir a carta de volta ainda
durante aquele dia… todo pimpão pelo meio dos táxis até que sou interpelado por alguém.
- ‘Para onde vais?’
- ‘O quê, estás a gozar comigo?’
- ‘A tua documentação, tens os teus documentos contigo?’ –
era um outro policia, este com uma farda mais escura que os de trânsito mas não
era dos ninjas, pareceu-me ser de um escalão inferior aos de trânsito.
- ‘Eh pá, eu não tenho tempo para isto, estou ali a ajudar
um colega teu que está ali na esquadra móvel e me pediu para ir buscar o carro.’
- ‘Ah sim? E para onde vais?’
- ‘Vou buscar o carro, eu tive que dar boleia a um colega
teu para apanhar um meliante e agora ele pediu-me para ir buscar o carro, iá?’
- ‘Sim, mas depois disso, para onde vais?’
- ‘Então, depois vou trabalhar irmão, eu estava a trabalhar
antes do teu colega me pedir ajuda.’
- ‘Ah, é um transito, é?’
- ‘Sim irmão, tenho que ir, iá?’
- ‘E não deixas uma ajudinha?’
- ‘Hoje não pá, já estou bem enrascado com o teu colega.
Hoje não dá, iá?’
E lá vou eu buscar o carro. Um tempão depois lá estou eu a
chegar à esquadra móvel e ele diz-me para estacionar do outro lado na berma.
Passado um pouco vem ter comigo e diz que já está tudo resolvido, só tive que
lhe dar boleia de volta para onde ele me tinha encontrado e lá recuperei a
carta de condução. Só demorou uma tarde quase inteira, mas pelo menos ganhei uma aventura para contar :).
Bernardo.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Ando a ser seguido
É como vos digo, sou seguido. Foi, tal como acontece com a maior parte das merdas que me acontecem na vida, de forma totalmente inesperada que o soube, estava eu no Lubango onde tinha ido fazer um trabalhinho de dois dias e quando o men que me tinha andado a aturar nesses dois dias me ia levar ao aeroporto deu uma boleia a um colega, conversa vai conversa vem diz o colega:
- Colega: eh pá, eu antes de vir para Angola andei a ver umas informações e fiquei seguidor de um blog, acho que é emigrado em angola ou assim, e era escrito por um gajo que também se chama Bernardo e até é meio parecido contigo.
Eu fiquei todo encaralhado, eh pá, não sei porquê mas fiquei com vergonha, sei lá, afinal parece que até há desconhecidos que liam as patetices que eu escrevia? Fiquei com o ego cheio, caramba agora sou conhecido por desconhecidos e até quase que sou reconhecido na rua (foi dentro do carro, pelo que técnicamente não podemos considerar que fui reconhecido na rua)... quase que já só falta sofrer um atentado para eu ser gente, mas apesar de ficar com o ego bué gordo fiquei todo nervoso e envergonhado, vá-se lá a saber porquê... sou assim, em muitas situações, principalmente naquelas em que até quero parecer um gajo inteligente e interessante, começo a transpirar e fico sem saber o que dizer, não é voluntário é assim como quem tem espasmos, ou convulsões, é involuntário mas acontece.
- Eu: ah sim? ... interessante.
- Colega: por acaso não és tu?
- Eu: ah, é possivel... talvez até possa ser.
- Colega: eh pá, eu curto bué esse blog, li aquelas histórias todas, de quando tiveram o acidente, a outra sobre conduzir sempre pela esquerda. Eu só estou no Lubango mas mal cheguei vi logo que era mesmo verdade, e as fotografias tiradas de cima da Sonangol e de quando blá blá blá.
Bem, o seguidor, que é um de entre aqueles 27 que estão listados ali em cima à direita, sabia as histórias todas, é bué simpatíco, estivemos a conversar durante a viagem toda (que é práí de 2 minutos inteiros) e gostei mesmo de o conhecer e de falar com ele.
Nota final: aquela cena do atentado era brincadeira... eu nem quero ser gente.
----------------------------------------------------------------
Hoje o avião vinha cheio cheiinho, as pessoas vinham todas amontoadas (um em cada lugar, claro está) mas ninguém se sentou num dos dois lugares ao meu lado. Eh pá, eu até agradeço aos deuses que ninguém se tenha sentado lá, fico com espaço para me poder esticar um pouco. Sempre que vou com pessoas ao lado é um sofrimento, as pernas compridas ficam sem posição em que estejam confortáveis e não se conseguem esticar um pedacinho... é chato. Ora bem, eu até gosto que ninguém se sente por perto mas fiquei a pensar... caramba, porque raio as pessoas preferem sentar num sitio onde já tem duas a ficar perto de mim? Será que cheiro mal? Tomei banho ontem às 20h, hoje às 7h e novamente hoje às 11h, será que devo mudar de gel de banho?
...
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
The End
Aqui o 11 de Novembro é feriado, é o dia da independência e como tive a sorte de me calhar numa sexta-feira aproveitei para escapar ao trabalho de sábado e ir
conhecer mundo com a ‘mary poppins’. Decidimos partir por essas estradas fora e
ir até Malange para ver a quedas de Kalandula.
Ainda mal tínhamos iniciado a
viagem quando, pelo caminho, apanhámos com uma tempestade diferente de qualquer
outra pela qual eu tivesse passado antes. Era uma tempestade tal que por vezes
mal se via a estrada mas o que caía no vidro do carro não era água da chuva,
nem neve, nem granizo... eram borboletas, borboletas pretas.
Não sei que fenómeno borboletífero acontece por esta data nesta parte do globo mas a verdade é que estou convencido de que todas as borboletas pretas do mundo se
reuniram ali, numa faixa de alguns quilómetros de estrada rodeada de floresta
entre Luanda e o N’Dalatando. Um milhão de borboletas morreram no vidro do meu
carro, outro milhão no do carro da frente e mais outras tantas no carro que
seguia à frente desse. Havia tantas borboletas que não era possível passar sem
esborrachar um milhão delas que ao serem esmagadas contra o vidro o deixavam coberto de uma substancia pastosa amarelada que teimava em não sair facilmente apenas
por se borrifar água no vidro e ligar os limpa pára-brisas. Um milhão daquelas
borboletas morreu naquele dia por cada carro que passou naquela estrada e ainda
assim o chão estava coberto por milhões mais.
No N’Dalatando fizemos uma paragem para conhecer a cidade e
tirar umas fotografias e em menos de alguns minutos ficámos rodeados por umas
dezenas de miúdos que tudo o que queriam era que eu lhes tirasse uma fotografia
para que depois a pudessem ver e se conseguissem encontrar a si próprios, no
pequeno ecrã da máquina, no meio da confusão de pequenos que povoava cada
fotografia. A vontade de se verem na fotografia era tanta que não paravam de se
empurrar uns aos outros e de me puxar os braços para que cada um fosse o
primeiro a poder gritar ‘eu estou ali, aquele sou eu’.
Seguimos para Malange, e como fomos à aventura, sem hotel
marcado corríamos o risco de não haver quartos e qual não é... corremos todos
os hotéis da cidade, todas as pensões e todos os albergues, ninguém tinha
quartos... nem mesmo a subtil insinuação de que eu pretendia pagar o dobro do
valor do quarto, apenas por causa do ar simpático do dono de uma albergaria,
quando este me disse que tinha acabado de alugar o último surtiu
qualquer efeito. Valeu-nos o tuga, dono de um restaurante que nos encaminhou
para uma missão beneditina / seminário onde dormimos num quarto paupérrimo, com
uma casa de banho sem luz e onde na manhã seguinte não havia água. Na incansável busca por um quarto acabámos por conhecer um simpático casal de estranhos que andava na mesma odisseia e com o qual nos cruzámos diversas vezes e sem que tivessemos combinado acabaram por ir parar ao mesmo sitio que nós.
Fomos ver as quedas de Kalandula no dia seguinte e imbuídos do espírito de
aventura que África nos faz sentir decidimos meter a nossa amostra de jipe pela
picada entre Kalandula e o Cacuso em vez de seguir pela estrada de alcatrão que
tínhamos feito no dia anterior. Perguntei à ‘betty boop’ se ela se sentia com
vontade de arriscar a ficar atascada na lama sem rede de telemóvel para pedir
ajuda e a dezenas de quilómetros de qualquer povoação, como obtive resposta
afirmativa lá fomos nós. Passámos por kimbos esquecidos pela civilização onde os
pequenos nos acenavam e gritavam quando passávamos, noutros onde os pequenos que
brincavam na lama fugiam ao avistar o carro e sempre que encontrávamos três ou
quatro a brincar perto da estrada oferecíamos-lhes os bombons que tínhamos comprado
numas bombas de gasolina e em troca eles ofereciam-nos um sorriso imenso e
alguns gritinhos de alegria.
Valeu-nos a tracção às quatro rodas da nossa mini-micro-amostra
de jipe pois passamos em alguns lameiros onde deu para a adrenalina subir ao
cérebro e criar um medo miudinho de ficar no meio da lama.
Umas vezes rodeados de floresta, outras a ver savana até onde a vista alcança foi ali que me senti mais em África.
Fomos ver as Pedras Negras de Pungo Andongo um sitio espetacular
e onde vale mesmo a pena subir e sentar um pouco a apreciar a vida e ainda tentamos ir ver a maior barragem de Angola, a barragem
de Capanda. Eu que já estive na de Cambambe e sei que tive que passar por dois
controlos policiais onde foi necessária uma autorização já sabia que o mais provável
seria não podermos chegar nem perto e assim foi. Um ‘pula’ habituado a passear por
cima das barragens da tuga não se lembra destas coisas mas imagino que as
barragens, durante a guerra, fossem alvos militares bastante apetecíveis para o
inimigo e como tal têm que ser bem protegidas. As memórias da guerra ainda não
desapareceram por completo e no controlo policial antes da barragem de Capanda
não nos deixaram passar para a visitar, é preciso autorização e nem sequer de
longe chegámos a ver o rio. Pelo caminho vimos apenas tempestades ao longe, na
savana, com relâmpagos a cair em locais distantes.
Tirámos muitas fotos bonitinhas entre as quais a que eu mais
gosto é a das seis pequenas com que nos cruzámos em Kalandula, cada uma levou
um bombom e em troca posaram para uma fotografia linda que a ‘quinny’ tirou e com que eu enfeitei este post para que parecesse bonito e vos levasse, ao engano, a lê-lo.
Fizemos também dois filmes, são bastante foleiros mas por certo vocês também
não esperavam melhor. A verdade é que foram feitos com uma máquina fotográfica das reles e baratas e também se eu soubesse fazer filmes estava a esta
hora em Hollywood, numa qualquer festa muito chic, ao lado da Angelina Jolie e
de outras que tais, certinho é que não estava aqui a escrever nem vos ia contar nada do que fizesse nessas loucas festas cheias de actrizes lindonas.
O filme das quedas de Kalandula podem ver em:
O filme com as borboletas podem ver em:
Chamo a atenção para a berma da estrada, esta é de cimento
branco mas de tantas borboletas ficou completamente preta.
Cada ponto preto que se
vê no filme não é um lixo na câmara nem no vosso ecrã, é uma borboleta que mais tarde se transformou em 'gosma nhanhenta espalhada pelo vidro de um carro'.
Para as fotografias, que são muitas fiz um novo álbum,
encontram-no em:
Esta foi a última vez que vos escrevi e é aqui que me despeço de todos vós... infelizmente escrever
faz-me ficar com o ego gordo (coisa típica de homens), caso vocês não saibam egos
gordos fazem pessoas arrogantes e eu já não ando longe de me achar um qualquer semi-deus,
tal e qual divindade incarnada já tenho alguns tiques faraónicos... Tudo isso
não ajuda nada a ser boa pessoa, mas também não é para menos, a verdade é que
tenho vinte e oito seguidores e lembro-me vagamente de ter ouvido falar de
alguém que há dois mil e tal anos atrás tinha apenas doze seguidores, sem
internet e sem nada acabou por morrer com a idade que tenho hoje e daí surgiu
uma religião imensa com milhões de seguidores. Pois bem, não é nada disso que
pretendo para mim, eu quero apenas ser eu pois é aquilo que sei fazer melhor e
uma vez que já tenho mais do dobro de seguidores do que esse outro rapaz tinha
com a minha idade parece-me que o mais sensato é parar por aqui.
As escrituras do Bernardo acabaram hoje, a 16 de Novembro, quatro ou cinco meses antes de fazer dois anos
que começaram. Dois anos é uma vida e valeu a pena a este blog existir por este
tempo, hoje morreu mas morre com a sensação de que teve uma vida jeitosinha, não foi inesquecivel mas viveu, não era intenção dele deixar saudades nem que a sua falta fosse sentida.
Saibam que se aqui voltarem será apenas para reler
histórias antigas (a verdade é que há duas ou três que são razoaveizinhas e
vale a pena reler).
Desta é que não volto,
Bernardo Marques.
.
domingo, 16 de outubro de 2011
Sorriso Chocolate
Hoje conheci alguém que verdadeiramente me impressionou, desta vez,
ao contrário de quando o disse no texto que escrevi há uns dias, digo-o sem qualquer sarcasmo na voz.
Durante o curto tempo que já vivi não foram
muitas as pessoas que me impressionaram de verdade. Não me consigo lembrar de
muitas mas também é natural, eu não ando aí pela rua a tentar impressionar os
outros e, como tal, tomo como natural que os outros não andem por aí a tentar
impressionar-me mas por vezes acontece quando não estamos nada à espera.
Lembro-me
de um indiano que numa manhã de Maio de 2006, numa rua de Hong Kong, me
confundiu com alguém conhecido e me falou em híndi (ou numa qualquer outra das restantes
21 línguas oficiais da Índia) e quando viu o meu olhar de estranheza lá me
perguntou em Inglês se eu não era Indiano. Disse-me que eu era deveras parecido
com um grande amigo dele. Sentei-me num banco de jardim com o homem e enquanto
conversávamos ele escrevinhou umas coisas num papel e disse que tinha
um dom. Dobrou o papel, pôs-mo na mão, pediu-me que a fechasse com força e
a mantivesse bem fechada, depois foi fazendo perguntas:
- ‘como te chamas?’ – ‘Bernardo.’
- ‘que idade tens?’ – ’28.’
- ‘e de onde és?’ – ‘ de Portugal.’
- ‘és casado?’ – ‘ah, nunca assinei nenhum papel, nem nunca
se fez nenhuma festa, mas sim, vivo com uma rapariga por isso acho
que sou casado.’
- ‘e qual é o nome dela?’ – ‘ora, é um nome português, se eu
o disser digo-o em português e o mais provável é que não percebas.’ – ‘está
bem, mas diz-me o nome dela.’ – ‘Cristina.’
- ‘se tivesses um desejo que se pudesse tornar real, apenas
um, qual era a coisa que mais querias neste mundo?’ – ‘oh, eu sou uma pessoa simples
e o que quero é apenas ser feliz, não preciso ter dinheiro nem viajar, não quero
ser importante nem ser influente, não quero ser rico nem quero ser famoso,
quero apenas ter uma vida feliz.’
- ‘Diz um número entre um e dez’ – ‘sete.’
- ‘Abre a mão e vê o papel.’
O pequeno farrapo de papel que aquele desconhecido me deu
para a mão, antes de eu lhe ter dito qualquer uma daquelas coisas, depois de
desdobrado revelou ter escrito ‘Cristina’, ‘Happy Life’ e ‘28’.
Ele lá explicou que o 28 era a minha idade, Cristina o nome
da minha mulher e Happy Life o meu desejo. Disse-me que 2007 seria o meu ano de
sorte, daí eu ter escolhido o número sete, e que eu iria ganhar uma fortuna nesse
ano e ele estava tão convencido disso que num outro papel escreveu o seu nome,
Gulzar Singh, e o número de telefone dele na Índia. Mostrou-me umas fotografias
de uns rapazes com diferentes deficiências e disse-me que na Índia ele dirigia
um mosteiro onde acolhiam crianças desfavorecidas. Pediu-me encarecidamente que
quando eu ficasse rico (no ano seguinte, 2007) não me esquecesse dele e fizesse
uma contribuição para a instituição. Eu como céptico que sou nestas coisas
místicas disse: ‘eu prometo que não me
esqueço de ti e no dia em que a sorte me abraçar vou partilhá-la contigo, mas
explica-me como raio fizeste isso?’ ao que ele apenas respondeu ‘Nós os
indianos temos um dom.’ e foi embora.
Olhei de novo para o papel e o facto de estar ali escrito ‘Cristina’
no meio de um quadradinho de papel, sentado num banco de jardim de Hong Kong onde a maioria
do pessoal nem sequer fala uma língua que se perceba, caramba fiquei
abismado e as 8 horas de diferença para a tuga, que faziam com que fossem 3 da
manhã para a Tini, não me impediram de lhe ligar para contar o que tinha
acontecido. Não mais me separei daqueles quadradinhos de papel e se bem que
raras vezes me lembro disto ainda hoje os tenho comigo (aqui em Luanda).
Apesar de ter jogado umas duas ou três vezes no euromilhões no ano de 2007 a verdade é
que não me saiu e o pobre Gulzar nunca mais me viu ou ouviu falar de mim nem do
meu dinheiro, mas caso ele tenha mesmo um dom e só se tenha enganado no ano eu
tenho o número de telefone dele.
Houve outras pessoas que num ou noutro momento da vida me
conseguiram tocar na alma e deixar marca para a vida mas voltando ao dia de
hoje... hoje fui ao Kero às compras com a Feliztini (mudei o nome dela há uns
dias) e fizemos muitas compras cansativas e tudo o mais e andámos às
turras um com o outro por causa dumas makas com a carne e com a moça carniceira.
Quando estávamos a chegar com as compras ao carro, amuados um com o outro
aparece uma pequena... não sei que idade terá ela (aqui nem sempre é fácil saber
a idade duma criança apenas tirando-lhe as medidas, um miúdo mal nutrido pode
ter metade do tamanho que devia) mas aparentava uns nove anitos, era muda e
muito provavelmente também surda e fazia uns sons acompanhados pelos gestos que
faziam com que a entendêssemos.
A primeira coisa que disse, passando a mão à
frente da cara seguida por um sinal de fixe com o polegar e apontando para mim,
era que eu sou um gajo bonitinho, como a Feliztini não percebeu ela repetiu
mais duas vezes até que eu traduzi os gestos em palavras (agora que penso
melhor se calhar a rapariga não é surda). Se descontar a minha avó e a minha
mãe ela é uma das três ou quatro mulheres que alguma vez me disseram que sou
bonitinho por isso fiquei logo a gostar daquela pequena. Depois fez um montão
de gestos para nos explicar que estava ali para nos aliviar da entediante tarefa
de colocar as compras dentro do carro e embora não tivesse tamanho para
conseguir tirar os sacos do carrinho de compras nem para os colocar mais longe
do que a porta da mala do Jimny começou logo a arrumar as tralhas que tenho
sempre na pequena mala do carro. Exigiu que lhe déssemos para as mãos todos os
sacos e sempre com um sorriso enorme no rosto e uma alegria contagiante lá foi
pondo os sacos dentro do carro. Quando acabou a tarefa ainda fez um gesto
passando a mão em frente do corpo todo seguido de um sinal de fixe e apontando
para a Feliztini que eu interpretei como sendo um sinal de que ela se veste
bem. No fim a Feliztini deu-lhe um pacote de bolachas de chocolate e 500Kz e
fomos embora enquanto ela nos acenava.
Ia no carro a caminho de casa e o sorriso
daquela pequena que nada tem, não consegue falar e tem que ir para o parque do
Kero para ganhar algum dinheiro aos nove anos não me saía da cabeça... baptizei-a
na minha mente de ‘sorriso chocolate’.
Eu já vos disse que sou feliz, mas a mim a vida deu-me tudo
o que precisava para ser feliz, para dizer a verdade deu-me bem mais do que
eu precisava para ser feliz, muito mais do que preciso para viver e muito provavelmente
bastante mais do que mereço. É bem possível que por cada euro que aquela
pequena consegue eu consiga cem, já fiz algumas viagens e conheci outros mundos,
por cada metro que ela já se afastou de sua casa é possível que eu tenha
viajado quilómetros...
Nesta vida sou feliz mas numa outra vida, na próxima vida eu
quero ser um sorriso chocolate, quero não ter nada e ser alegre, quero não ter
nada e sorrir, quero não ter nada e conseguir alegrar tontos que tudo têm e andam
carrancudos. Quero não ter nada e conseguir ser feliz.
Tenho pena de não andar sempre com a máquina fotográfica
pois se a tivesse hoje de certeza que no cimo deste texto estaria um grande
sorriso escarrapachado, um sorriso de dentes brancos que vos iria proibir de
andar tristes ou carrancudos.
A existir um deus, imagino que se ele quisesse enviar um
anjo para acordar uns tontos do sono em que vivem, esse anjo seria aquela
pequena. Pena é que eu saiba que não demoramos muito para que o torpor volte e faça com que nada façamos para tentar mudar um pequeno pedaço do mundo que seja.
Ainda no início da viagem para casa, mal tínhamos saído do parque
do Kero quando a Feliztini diz: ‘ ‘Tenho
tanta pena daquela pequena, este mundo é tão injusto, apetecia-me levá-la
connosco e ajudá-la.”
Ao que eu respondi: “Sim, num mundo um pouco mais justo
ter-lhe-íamos pelo menos perguntado quanto é que ela precisa de levar para casa
quando vai para ali pedir... se calhar ela vai lá apenas para ganhar mil
kwanzas e devíamos pelo menos dizer-lhe ‘olha, vai para a escola estudar que eu
dou-te mil kwanzas todos os dias’, mil kwanzas por dia nós nem notávamos e para
ela poderia ser a diferença para ter uma vida melhor.”
Uma lágrima ficou ali no canto do olho e ao olhar para o lado vi que no rosto da
Feliztini já corriam umas quantas.
É pena que o egoísmo seja algo intrínseco de todos os seres,
agarramo-nos demais aquilo que pensamos ser nosso, a verdade é que cada um
apenas pensa em si e de vez em quando naqueles que ama e todos nós temos um
sentimento de posse muito forte do qual é muito difícil que nos libertemos. A
minha comida, a minha casa, o meu dinheiro, as minhas coisas. Mesmo tendo mil
vezes mais do que aquela pequena não demos mais do que migalhas que nenhuma
falta fazem, apenas damos aquilo que não custa perder. Em que mundo se pode
permitir que alguém tenha mil vezes mais do que outros? Num mundo onde
milhões de pessoas têm mil vezes mais do que eu e há biliões que têm mil vezes
menos. Neste mundo, a viver num local onde o respeito pelo outro parece que nem sempre é importante por vezes dou por mim a pensar que até tenho um coração bom apenas porque deixei uns pequenos que vêm da escola atravessar a estrada e eles me agradecem sorridentemente mas caramba, para deixar pequenos atravessar a estrada nem coração é preciso ter, basta que se tenha uma consciência.
É óbvio que sei que a escola aqui provavelmente de pouco
servirá a alguém que é mudo e possivelmente surdo, é possível também que se ela
tivesse mil kwanzas preferisse ganhar outros mil em vez de ir à escola... mas pelo
menos eu teria feito algo.
Quando voltar lá vou procurar aquela pequena, tentar dar-lhe
algo mais, não sou a Madre Teresa e é muito provável que não seja eu a mudar a
vida daquela pequena, ela não consegue falar e nós não a conseguimos perceber,
nem sequer o nome dela conseguiremos saber, mas eu gosto dela.
Antes de deixar este mundo espero um dia poder tocar na alma
de alguém e deixar marca, espero fazer algo por uma pessoa que não conheço,
algo que esse alguém nunca esqueça e que faça realmente a diferença.
Algo que
me custe mas que seja bom.
Será que já ganhei a fortuna que o Gulzar Singh previa?
...
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Dondo Trip
Hoje, numa viagem de trabalho passei pelo Dondo, uma pequena
cidade da província do Kwanza Norte.
Andava eu por lá a tirar umas fotografias ao
rio quando passa por mim e pelo meu colega Eduardo, que foi comigo, um grupo de
quatro marmanjos. Qual não é quando de repente e assim do nada alguém que eu
não conheço de lado nenhum passou a ser a pessoa por quem, eu, mais
consideração tenho neste mundo. Então não é que enquanto bebia uma cervejola e ia
andando pelo caminho um deles, com a mão que tinha livre, saca o instrumento de
fora e sem que nada o detivesse das outras duas tarefas (caminhar e emborcar o
conteúdo da garrafa de cerveja pela goela abaixo) começou a libertar os fluídos
corporais que tinha em excesso. Caramba, vocês já viram, o rapaz conseguia
fazer as três coisas ao mesmo tempo o que já de si é uma acrobacia, no mínimo, de difícil execução mas traz também inúmeras vantagens.
Para começar ia regando o caminho, que por ser de terra e estar um dia de calor
imenso levanta pó, estando a terra humedecida não há pó, um favor que fez à
comunidade. Depois o rapaz tinha pago pela cerveja e estando já cheio ele conseguiu,
enquanto ia bebendo, criar no interior de si próprio espaço para a cerveja que
restava na garrafa, um favor que fez a si próprio. Fez isto tudo sem abandonar
por um instante que fosse os seus três amigos que, tenho como certo, muito
prezam a sua companhia, um favor que fez aos amigos.
Naquele momento deu-me vontade de não deixar passar a
oportunidade de conhecer tamanha personalidade mas, felizmente, de rompante
atingiu-me na cabeça a ideia de que assim que eu o interpelasse ele se iria
voltar para ver quem estaria a falar com ele (uma quarta tarefa que não tenho
dúvidas conseguiria ainda fazer sem ter que interromper nenhuma das outras) e
ao voltar-se poderia por instantes perder o controlo do jacto de liquido que
estava a libertar e estando a voltar-se para mim eu corria sérios riscos de ser
regado com liquido morno, o que numa tarde de calor, com o sol a queimar todos
os pedaços de pele não cobertos e com a careca coberta de suor, presumo não ser
nada de agradável.
Deixem-me dizer-vos que aqui por estas paragens é comum ver o zingarelho de um qualquer jovem a se aliviar voltado para a estrada ou senhoras a
libertarem-se do que as aflige no passeio ou numa qualquer berma de estrada,
não foi o instrumento do rapaz que me impressionou nem o facto de ele despudoradamente
se libertar no caminho, isso é normal, foi mesmo o facto de ele conseguir fazer
tudo em simultâneo.
A caminho de Luanda, a uns 112Km da cidade, uns 500m antes
da cortada para Malange, vinha eu entretido na minha tarefa de conduzir, concentrado
em desviar-me dos buracos da estrada (pobre Suzuki Jimny, perdeu pelo menos
três anos de vida hoje, houve alturas em que pensei que ia rebentar ambos os
pneus da frente ou partir o eixo da direcção, o raio dos buracos têm a mania de
aparecer do nada sempre quando um gajo já vai a 100 ou 120Km/h, por vezes não
dão grandes hipóteses) e dos camiões dos chineses (os chineses proliferam por estas paragens que nem coelhos, aconteceu-me hoje encontrar de uma só assentada quatro camiões de chineses em contramão a ultrapassar outros oito exactamente no momento em que nós decidimos estar a passar naquela estrada) quando os olhos atentos do Eduardo viram algo diferente
e ele perguntou, ‘hei, o engenheiro já viu aquilo?’. Pois bem, era um bosque
diferente, um bosque em que as pequenas ervas comem árvores grandes, havia até
imbondeiros a ser completamente devorados pela gula daquelas pequenas folhas. Parece
que alguém fez um gigantesco lençol de pequenas folhas e o atirou para cima do
bosque, ou talvez tenha nevado folhas que ao cair, tal como a neve, cobriram o
bosque por inteiro. Tirei umas fotos que pus no álbum (já antes pus umas outras sem
vos dizer nada), mas não me atrevi a pôr os pés num bosque sem chão onde as
folhas comem árvores... tenho a certeza que se me tivesse dado para entrar não
estaria agora aqui pois teria sido devorado pelas folhas num instante.
Tenho cá
para mim que aquele bosque foi amaldiçoado por um qualquer kimbanda há milénios
atrás e desde então aquelas folhas malditas comem tudo o que se lhes atravessa
no caminho (ou também pode dar-se o caso de o rapaz, meu ídolo de que vos falei
há poucas linhas atrás, passar por lá habitualmente e dever-se a isso o facto
daquelas ervas crescerem tão viçosas).
Aqueles de vocês que quiserem ver as fotos vejam as últimas do album em https://picasaweb.google.com/117986880837828270606/FotosAngola
Não sei se volto,
Bernardo.
.
domingo, 2 de outubro de 2011
Sunset Party
Hoje eu e a Timberli decidimos ir ler os nossos livros para
a praia.
Fomos para o Tamariz e abancámos num sofá a ler. Um pouco
sem querer acabamos por dar de caras com uma ‘sunset party’. Música alta, um
montão de gente bonita e uns quantos a dançar. Ver o angolano a dançar é algo
de extraordinário. Acreditem que todos os tugas que dançam nesses inúmeros
bares e discotecas que proliferam por aí parecem uns atadinhos perto de um
qualquer angolano dançante.
Eu nunca fui muito moço de ir a discotecas nem de gostar de
bares dançantes, mesmo em novo sempre preferi passar as noites em bares calmos,
apenas com música ambiente, a ter conversas de teor filosófico (filosofias de
adolescente) com os amigos, acompanhados por uma(s) garrafa(s) de vinho ou uns
cálices de porto mas uma vez ou outra, uma ou outra pessoa lá me conseguiu
convencer a ir a uma ou outra discoteca. Enquanto nas discos da tuga sempre
apanhei grandes secas, encostava-me a um canto e ficava lá a beberricar uma
qualquer substância alcoólica e a olhar para uma ou outra rapariga bonita a
dançar aqui a coisa é diferente. Se há coisa que o angolano não tem é complexos,
não sei se será por dançar em inúmeras festas desde pequeno ou se vem da
educação, o angolano é completamente livre numa pista de dança e dança de tal
forma cativante que nos faz (aos toscos que são amarrados como eu) aproximar da
pista de dança e ficamos ali na fronteira entre a ‘não pista’ e a pista, com o
pézinho já a pisar dentro da pista e com uma vontade enorme dentro de nós a fazer
força para que nos juntemos a eles. Uma vozinha cá dentro a dizer, vai,
liberta-te, dança, salta, sem medo, se eles todos conseguem tu também consegues,
mexe-te sem vergonha.
Ainda não foi hoje, só consigo dançar assim se estiver
sozinho no quarto ou na sala... basta que
existia um par de olhos nas proximidades e fico com umas grilhetas muito
pesadas amarradas aos pés e então apenas cruzo os braços, vou abanando o joelho
direito e fico ali, cheio de vontade de ir para o meio deles mas sem coragem para o fazer, com medo de
fazer figura de urso e ser expulso da pista por todas as pessoas que querem
realmente dançar. Alguém que ande por ali a olhar muito atentamente para os
joelhos do pessoal vai ver que eu estou de facto a dançar... apenas com o
joelho direito, mas para todas as outras pessoas sou simplesmente alguém com um
ar muito sério a ver todo o resto do pessoal divertir-se.
.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Ganhar asas...
Alguma vez vos
pareceu que quase conseguiam voar?
Não me acontece
todos os dias, para dizer a verdade nem me lembro de quando o senti pela última
vez... mas por umas três ou quatro vezes na vida pareceu-me que era capaz de
voar por alguns segundos.
Eu e a minha sapinha
por vezes dá-nos uma de ir correr para o calçadão na ilha de Luanda, não é para
perder a barriga nem para ser mais saudável é só para exercitar um pouco estes
músculos flácidos. Andamos mais do que corremos mas damos sempre uma corridinha,
por cada passada minha ela tem que dar umas três e um dia destes, enquanto
corria, lembrei-me que quando ainda tinha a minha juventude aconteceu sentir
que quase voava.
O caminho de casa
para a universidade eram uns dois ou três quilómetros que eu percorria a pé
todos os dias, alguns por duas vezes (ir e voltar) outros quatro (quando ia
almoçar a casa). Lembro-me que uma ou outra vez vez corri, já não sei porquê,
talvez estivesse atrasado, ou talvez só me apetecesse correr. Houve um dia em
que alarguei mais o passo (tenho umas pernas compridas) e a dada altura dei por
mim a saltar que nem uma gazela de thompson e talvez só parecesse um miúdo
tonto a correr de forma ridícula mas a verdade é que ficava no ar por mais
tempo do que aquele que parecia lógico, a cada passada sentia que ficava suspenso
por breves instantes antes de voltar a poisar os pés no chão e parecia que em
cada passada conseguia voar por um segundo.
Lembro-me de outra
vez em que descia os degraus de uma qualquer escadaria três a três (tenho
pernas compridas) e como três degraus é fruta a mais para umas pernas, mesmo
que compridas, o pé de trás tinha que levantar antes do da frente sentir o
chão. O calcanhar do pé da frente quase que tocava no degrau anterior àquele em
que iria poisar, o que me faria ir com a cara ao chão e rebolar escadaria
abaixo, mas dava a sensação que algo fazia com que ficasse suspenso no ar umas
milésimas de segundo a mais do que que seria racionalmente espectável e acabava
por aterrar no degrau desejado e por momentos, por breves momentos, em cada um
daqueles saltos, quando estava no ar parecia que conseguia voar por um nadinha.
Quando já era
maiorzinho, mais responsável e respeitável e já tinha um trabalho decente, esse
trabalho levou-me quase sempre ao último piso de todos os edifícios que visitei.
Quem no seu trabalho passa o tempo a ir ao último piso de diversos edifícios
não perde a oportunidade de ver o mundo de uma perspectiva diferente e de, pelo
menos nos mais altos, ir ao terraço ver o quão pequeninas as pessoas são quando
vistas lá de cima, como os automóveis parecem os carrinhos de brincar da infância,
de ver até onde a vista alcança e se afinal está ou não no ponto mais alto da
cidade. Eu nunca perco a oportunidade.
Pois bem, eu não
tenho instintos suicidas caso assim fosse não estaria agora a escrever, mas já
me aconteceu, por mais do que uma vez, quando estou bem lá no cimo a olhar para
baixo (ei... nunca estou na beirinha do precipício, não imaginem a coisa com
tanto dramatismo, os terraços têm sempre um muro), a sentir o vento forte
contra o peito, caramba... já dei por mim a pensar que com aquele vento,
daquela altura, se calhar era possível, qual será a sensação? mas algo fez com
que eu voltasse à razão e dissesse a mim mesmo que era um nadinha estúpido e
que ia esborrar-me (esborrachar-me + borrar-me) todo no chão lá em baixo o que
não ia ficar nada bonito e era bem capaz de chocar um ou outro transeunte.
Isto tudo para
dizer o quê? Que decidi que vou voar.
Aos 30 anos
decidi que havia de andar de mota e comprei a minha Suzuki VStrom 650, fui
tirar a carta e sem que nunca antes tivesse andado em qualquer motoreta passei
a andar de mota todos os dias, com chuva ou com sol. Agora, em Angola, a minha ‘maria
bolacha’ não me deixa ter uma mota (e eu que queria tanto gastar um dinheirão
para ter o novo modelo da VStrom). Acha que só os loucos e desajuizados se
metem numa mota em cidades onde não há regras de trânsito. Eu como até concordo
com ela, aos 33 deu-me para voar.
Vou ganhar asas e
voar, para ser mais preciso, vou ganhar dinheiro para comprar uma asa de
parapente e depois vou ter que ter um montão de aulas para aprender a voar e um
dia, um dia que ainda vem longe (só vou poder ter aulas nas férias, duvido que
haja instrutores de parapente em Angola) vou levantar voo do heliporto da Sonangol,
ou do terraço da ESCOM e serei o primeiro maluco a voar sobre os céus de Luanda
e a aterrar numa qualquer praia da ilha, ou nos jardins da nova marginal que
por essa altura já estará acabada. Será que se pode voar nas cidades? Se calhar
vou acabar preso.
Vocês podem não
acreditar mas um dia os habitantes de Luanda vão olhar para cima e ver um estranho
ponto no céu. Esse ponto serei eu.
...
sábado, 24 de setembro de 2011
Sê gentil sempre que for possível.
África faz-nos
sentir pequeninos, basta sair da cidade e percorrer uma qualquer estrada para
notarmos que aqui o mundo é diferente, é maior.
Andamos centenas de quilómetros
sem ver mais do que mato e quando passamos num qualquer kimbo de meia dúzia de
casas percebemos que afinal é possível viver sem ter nada daquilo que
pensávamos ser essencial. Os kimbos aqui não têm água nem luz, têm apenas uns
casinhotos feitos de madeira ou de tijolos de terra com telhados de colmo ou
chapa de zinco. Não têm ruas asfaltadas nem passeios (isso nem a maioria das
cidades tem) têm apenas terra entre as casas, não têm lojas nem restaurantes,
têm, aqueles que são maiorzitos, apenas uma escola e um centro de saúde
minúsculo. Ainda assim, ao passar, vejo os pequenos a ir a pé pela estrada sorridentes
a caminho da escola que fica na aldeia ao lado e levam, para além dos livros,
uma cadeira de plástico debaixo do braço. Oiço crianças rir enquanto brincam
num rio navegando na sua pequena jangada feita de três troncos de bananeira e
mulheres a cantar enquanto se lavam ou lavam a roupa no rio.
Depois uma pessoa
chega a casa e liga a televisão para descobrir que aí na tuga fazem
manifestações porque estão a pensar fechar a escola e as crianças terão que ir,
num qualquer transporte que a câmara disponibilizará, para uma outra escola
numa outra aldeia a 4Km de distância. Uma pessoa até se sente mal e pensa ‘caramba,
quatro quilómetros são 5 minutos de carro, aqui alguns miúdos com mais sorte
que outros têm uma cadeirinha que podem levar para não terem que se sentar no
chão’.
Um gajo decide
sair de casa e ir jantar com a sua doninha a um qualquer restaurante e não
demora muito para se aperceber que devia ter ficado a ver televisão... há um
ano e pouco atrás, quando cheguei, aquilo que me causava mais impressão era a
lentidão dos empregados de mesa, o facto de ter que esperar horas e horas pelo
manjar pelo qual iria pagar uma pequena fortuna, mas agora que tenho
frequentado restaurantes mais céleres e também mais dispendiosos noto que afinal
não é isso o pior dos restaurantes. Aquilo que causa mais asco, o pior mesmo, são as pessoas, os clientes. As pessoas, quando se sentem pequeninas, assim que têm
algum dinheiro no bolso ficam com o rei na barriga e ficam todas inchadas a
pensar que afinal são muito importantes e que sem eles este mundo não existiria.
E o que há de melhor para ficar ainda mais importante? Destratar outras pessoas,
falar de cima e com desprezo e é vê-los a inchar e inchar, cada vez mais
importantes cada vez com mais antipatia... poxa, não custa nada ser simpático,
não se paga mais por ser simpático e se fizermos alguém sorrir não vamos perder
nada só damos e ganhamos um pouco de felicidade. Aqui há dias estava com a
Timbi num bom restaurante onde o serviço e a comida são excelentes e ao nosso
lado estava uma mesa de 8 tugas em que pela certa nem conseguiram desfrutar da
boa comida pois passaram o tempo todo a destratar os empregados de mesa, até
parecia que cada naco de antipatia que lançavam ao empregado rendia créditos de
importância no seio dos seus amigos. Até eu e a Tini quase nos engasgávamos com
os lombinhos de lagosta envoltos em bacon.
Uns dias antes
fomos a uma pizzaria e mesmo ao nosso lado estavam duas pequenas angolanas que
não deviam ter mais de 16 ou 17 anitos e durante todo o jantar não conseguiram
dirigir uma frase ao empregado de mesa que não fosse recheada de antipatia,
reclamavam de tudo e de nada, principalmente coisas sem sentido.
Eu sou feliz, o
pedaço de vida que já vivi deu-me tudo aquilo que podia esperar dela. Eu só
queria ser tão sortudo como sou e talvez por isso tento ser boa pessoa todos os
dias.
É verdade que não
sou perfeito, e às vezes também stresso aqui com os porteiros do prédio quando
deixam, mais uma vez, que me roubem o meu tão apreciado lugar de
estacionamento, mas também, caramba, eles deixam que isso aconteça todos os
dias, ou à hora do almoço, ou à noite ou em ambos os momentos.
Quem me conhece
sabe que a simpatia não é uma das minhas melhores qualidades, sou pessoa de
respostas curtas e secas mas também não sou antipático de forma gratuita, não
trato mal os outros sem mais nem quê, apenas porque apetece ou porque isso
possa impressionar os meus amigos e fico triste se vejo alguém destratar outras
pessoas.
Não tenho nada
para ensinar porque não sei mais nem sou melhor que ninguém mas o meu conselho
para ti, triste que me lês, é que se não gostas do que fazes então faz o que
gostas. Não julgues os outros pelo que são ou o que fazem, o outro não é pior
por ser diferente ou fazer diferente. Faz alguém sorrir, vais ganhar felicidade.
Faz um estranho sorrir. Sorri todos os dias.
Eu sei que o JC
vos prometeu a todos que do outro lado espera-vos uma vida melhor e é lá que
está a felicidade mas é preciso ter presente que há o risco de ele ter mentido,
pode não estar ninguém à vossa espera do outro lado, o melhor mesmo é ser feliz
aqui agora. Não passes a vida toda apenas à espera da vida toda.
Gandhi uma vez
disse ‘não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho’.
Esta é do Dalai
Lama ‘Sê gentil sempre que for possível. É sempre possível’.
Até à próxima,
Bernardo Marques.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


