segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ganhar asas...




Alguma vez vos pareceu que quase conseguiam voar?

Não me acontece todos os dias, para dizer a verdade nem me lembro de quando o senti pela última vez... mas por umas três ou quatro vezes na vida pareceu-me que era capaz de voar por alguns segundos.
Eu e a minha sapinha por vezes dá-nos uma de ir correr para o calçadão na ilha de Luanda, não é para perder a barriga nem para ser mais saudável é só para exercitar um pouco estes músculos flácidos. Andamos mais do que corremos mas damos sempre uma corridinha, por cada passada minha ela tem que dar umas três e um dia destes, enquanto corria, lembrei-me que quando ainda tinha a minha juventude aconteceu sentir que quase voava.

O caminho de casa para a universidade eram uns dois ou três quilómetros que eu percorria a pé todos os dias, alguns por duas vezes (ir e voltar) outros quatro (quando ia almoçar a casa). Lembro-me que uma ou outra vez vez corri, já não sei porquê, talvez estivesse atrasado, ou talvez só me apetecesse correr. Houve um dia em que alarguei mais o passo (tenho umas pernas compridas) e a dada altura dei por mim a saltar que nem uma gazela de thompson e talvez só parecesse um miúdo tonto a correr de forma ridícula mas a verdade é que ficava no ar por mais tempo do que aquele que parecia lógico, a cada passada sentia que ficava suspenso por breves instantes antes de voltar a poisar os pés no chão e parecia que em cada passada conseguia voar por um segundo.

Lembro-me de outra vez em que descia os degraus de uma qualquer escadaria três a três (tenho pernas compridas) e como três degraus é fruta a mais para umas pernas, mesmo que compridas, o pé de trás tinha que levantar antes do da frente sentir o chão. O calcanhar do pé da frente quase que tocava no degrau anterior àquele em que iria poisar, o que me faria ir com a cara ao chão e rebolar escadaria abaixo, mas dava a sensação que algo fazia com que ficasse suspenso no ar umas milésimas de segundo a mais do que que seria racionalmente espectável e acabava por aterrar no degrau desejado e por momentos, por breves momentos, em cada um daqueles saltos, quando estava no ar parecia que conseguia voar por um nadinha.

Quando já era maiorzinho, mais responsável e respeitável e já tinha um trabalho decente, esse trabalho levou-me quase sempre ao último piso de todos os edifícios que visitei. Quem no seu trabalho passa o tempo a ir ao último piso de diversos edifícios não perde a oportunidade de ver o mundo de uma perspectiva diferente e de, pelo menos nos mais altos, ir ao terraço ver o quão pequeninas as pessoas são quando vistas lá de cima, como os automóveis parecem os carrinhos de brincar da infância, de ver até onde a vista alcança e se afinal está ou não no ponto mais alto da cidade. Eu nunca perco a oportunidade.
Pois bem, eu não tenho instintos suicidas caso assim fosse não estaria agora a escrever, mas já me aconteceu, por mais do que uma vez, quando estou bem lá no cimo a olhar para baixo (ei... nunca estou na beirinha do precipício, não imaginem a coisa com tanto dramatismo, os terraços têm sempre um muro), a sentir o vento forte contra o peito, caramba... já dei por mim a pensar que com aquele vento, daquela altura, se calhar era possível, qual será a sensação? mas algo fez com que eu voltasse à razão e dissesse a mim mesmo que era um nadinha estúpido e que ia esborrar-me (esborrachar-me + borrar-me) todo no chão lá em baixo o que não ia ficar nada bonito e era bem capaz de chocar um ou outro transeunte.

Isto tudo para dizer o quê? Que decidi que vou voar.
Aos 30 anos decidi que havia de andar de mota e comprei a minha Suzuki VStrom 650, fui tirar a carta e sem que nunca antes tivesse andado em qualquer motoreta passei a andar de mota todos os dias, com chuva ou com sol. Agora, em Angola, a minha ‘maria bolacha’ não me deixa ter uma mota (e eu que queria tanto gastar um dinheirão para ter o novo modelo da VStrom). Acha que só os loucos e desajuizados se metem numa mota em cidades onde não há regras de trânsito. Eu como até concordo com ela, aos 33 deu-me para voar.
Vou ganhar asas e voar, para ser mais preciso, vou ganhar dinheiro para comprar uma asa de parapente e depois vou ter que ter um montão de aulas para aprender a voar e um dia, um dia que ainda vem longe (só vou poder ter aulas nas férias, duvido que haja instrutores de parapente em Angola) vou levantar voo do heliporto da Sonangol, ou do terraço da ESCOM e serei o primeiro maluco a voar sobre os céus de Luanda e a aterrar numa qualquer praia da ilha, ou nos jardins da nova marginal que por essa altura já estará acabada. Será que se pode voar nas cidades? Se calhar vou acabar preso.

Vocês podem não acreditar mas um dia os habitantes de Luanda vão olhar para cima e ver um estranho ponto no céu. Esse ponto serei eu.

...

sábado, 24 de setembro de 2011

Sê gentil sempre que for possível.




África faz-nos sentir pequeninos, basta sair da cidade e percorrer uma qualquer estrada para notarmos que aqui o mundo é diferente, é maior. 
Andamos centenas de quilómetros sem ver mais do que mato e quando passamos num qualquer kimbo de meia dúzia de casas percebemos que afinal é possível viver sem ter nada daquilo que pensávamos ser essencial. Os kimbos aqui não têm água nem luz, têm apenas uns casinhotos feitos de madeira ou de tijolos de terra com telhados de colmo ou chapa de zinco. Não têm ruas asfaltadas nem passeios (isso nem a maioria das cidades tem) têm apenas terra entre as casas, não têm lojas nem restaurantes, têm, aqueles que são maiorzitos, apenas uma escola e um centro de saúde minúsculo. Ainda assim, ao passar, vejo os pequenos a ir a pé pela estrada sorridentes a caminho da escola que fica na aldeia ao lado e levam, para além dos livros, uma cadeira de plástico debaixo do braço. Oiço crianças rir enquanto brincam num rio navegando na sua pequena jangada feita de três troncos de bananeira e mulheres a cantar enquanto se lavam ou lavam a roupa no rio.

Depois uma pessoa chega a casa e liga a televisão para descobrir que aí na tuga fazem manifestações porque estão a pensar fechar a escola e as crianças terão que ir, num qualquer transporte que a câmara disponibilizará, para uma outra escola numa outra aldeia a 4Km de distância. Uma pessoa até se sente mal e pensa ‘caramba, quatro quilómetros são 5 minutos de carro, aqui alguns miúdos com mais sorte que outros têm uma cadeirinha que podem levar para não terem que se sentar no chão’.

Um gajo decide sair de casa e ir jantar com a sua doninha a um qualquer restaurante e não demora muito para se aperceber que devia ter ficado a ver televisão... há um ano e pouco atrás, quando cheguei, aquilo que me causava mais impressão era a lentidão dos empregados de mesa, o facto de ter que esperar horas e horas pelo manjar pelo qual iria pagar uma pequena fortuna, mas agora que tenho frequentado restaurantes mais céleres e também mais dispendiosos noto que afinal não é isso o pior dos restaurantes. Aquilo que causa mais asco, o pior mesmo, são as pessoas, os clientes. As pessoas, quando se sentem pequeninas, assim que têm algum dinheiro no bolso ficam com o rei na barriga e ficam todas inchadas a pensar que afinal são muito importantes e que sem eles este mundo não existiria. E o que há de melhor para ficar ainda mais importante? Destratar outras pessoas, falar de cima e com desprezo e é vê-los a inchar e inchar, cada vez mais importantes cada vez com mais antipatia... poxa, não custa nada ser simpático, não se paga mais por ser simpático e se fizermos alguém sorrir não vamos perder nada só damos e ganhamos um pouco de felicidade. Aqui há dias estava com a Timbi num bom restaurante onde o serviço e a comida são excelentes e ao nosso lado estava uma mesa de 8 tugas em que pela certa nem conseguiram desfrutar da boa comida pois passaram o tempo todo a destratar os empregados de mesa, até parecia que cada naco de antipatia que lançavam ao empregado rendia créditos de importância no seio dos seus amigos. Até eu e a Tini quase nos engasgávamos com os lombinhos de lagosta envoltos em bacon.
Uns dias antes fomos a uma pizzaria e mesmo ao nosso lado estavam duas pequenas angolanas que não deviam ter mais de 16 ou 17 anitos e durante todo o jantar não conseguiram dirigir uma frase ao empregado de mesa que não fosse recheada de antipatia, reclamavam de tudo e de nada, principalmente coisas sem sentido.

Eu sou feliz, o pedaço de vida que já vivi deu-me tudo aquilo que podia esperar dela. Eu só queria ser tão sortudo como sou e talvez por isso tento ser boa pessoa todos os dias.
É verdade que não sou perfeito, e às vezes também stresso aqui com os porteiros do prédio quando deixam, mais uma vez, que me roubem o meu tão apreciado lugar de estacionamento, mas também, caramba, eles deixam que isso aconteça todos os dias, ou à hora do almoço, ou à noite ou em ambos os momentos.
Quem me conhece sabe que a simpatia não é uma das minhas melhores qualidades, sou pessoa de respostas curtas e secas mas também não sou antipático de forma gratuita, não trato mal os outros sem mais nem quê, apenas porque apetece ou porque isso possa impressionar os meus amigos e fico triste se vejo alguém destratar outras pessoas.

Não tenho nada para ensinar porque não sei mais nem sou melhor que ninguém mas o meu conselho para ti, triste que me lês, é que se não gostas do que fazes então faz o que gostas. Não julgues os outros pelo que são ou o que fazem, o outro não é pior por ser diferente ou fazer diferente. Faz alguém sorrir, vais ganhar felicidade. Faz um estranho sorrir. Sorri todos os dias.

Eu sei que o JC vos prometeu a todos que do outro lado espera-vos uma vida melhor e é lá que está a felicidade mas é preciso ter presente que há o risco de ele ter mentido, pode não estar ninguém à vossa espera do outro lado, o melhor mesmo é ser feliz aqui agora. Não passes a vida toda apenas à espera da vida toda.

Gandhi uma vez disse ‘não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho’.

Esta é do Dalai Lama ‘Sê gentil sempre que for possível. É sempre possível’.

Até à próxima,
Bernardo Marques.

sábado, 30 de julho de 2011

Hoje dou-vos a conhecer... o Óscar

O Óscar tem sido a minha companhia nestes meses que estive sozinho. 
É ele quem faz com que eu não jante sempre sozinho nem almoce todos os dias sem ninguém. Ele põe-se ali, encostado a uma parede e fica a olhar para mim com aqueles olhos grandes e negros e em troca eu olho para ele com os meus olhos e ficamos assim por largos minutos, por vezes até ele me sorrir.
Vejo-o muitas vezes principalmente durante noite ou de manhã cedo, às 7h estou eu a sair do banho e ele lá está, encostado à parede com o seu olhar atento ou à noite quando me vou deitar lá está ele, interessado...

O Óscar é uma osga e de tão pequeno e frágil é quase transparente. Apesar de o meu colega Miguel achar que as osgas são peçonhentas e que se uma nos tocar ficamos com a pele marcada para todo o sempre nós os dois temos vivido pacificamente, eu não o chateio e ele não me incomoda e penso que nem sequer lhe passaria pela cabeça passear-se em cima de mim enquanto durmo. É bem capaz que ele coma os restos de comida que deixo na cozinha mas eu não me importo porque não estava a pensar comê-los e a casa é suficientemente grande para nós os dois vivermos nela e passarmos dias sem nos encontrarmos. Mas hoje o Óscar passou das marcas, andava eu todo descascado pelo quarto depois do banho matinal quando apanho aqueles olhos a espiar-me... ele estava ali, escondido a ver-me na minha nudez. Eu nem sou muito esquisito com essas coisas nem nada e até tenho um gene exibicionista (a minha Tina que o diga, eu ando sempre a tentar convencê-la a fazer nudismo) o problema mesmo foi o facto de estar a espiar-me escondido, todo camuflado, só se viam aqueles dois olhões negros a ver-me com muita atenção, não estava na parede como antes onde eu o via facilmente, parecia tímido e preverso. Ainda por cima logo à noite o pessoal vem jantar aqui a casa e se ele se põe escondido a espiar vai incomodar os convidados pela certa. As pessoas vão sentir-se observadas sem saber bem porquê. Não quero que ele se habitue a espiar os outros.

Pu-lo fora de casa, expulsei-o. Ele ficou ali, na pedra da varanda todo rijo com o rabo empinado como quem diz ‘És mau mas eu sou pior. Tem cuidadinho, tu és grande mas eu sou peçonhento.’ Não lhe liguei nada e foi apenas uma lição. Hoje a porta fica aberta o dia todo e ele se quiser voltar pode voltar.

Só há uma questão que me intriga e desafia tudo o que conheço do mundo... tenho quase a certeza que há duas semanas atrás o Óscar já tinha pelo menos o dobro do tamanho.
Será que as osgas vão ficando mais pequenas com o tempo, ao contrário de todos os outros seres vivos deste mundo?

Eu volto,
Bernardo Marques






sábado, 2 de julho de 2011

A Tuga em Desgraça



Com as noticias que vou vendo e as desgraças que são anunciadas aí desse lado do equador dei por mim a pensar:
Suponhamos que um tuga ganha, com o seu esforço do dia a dia, mil euritos por mês (já não são todos). No dia em que recebe o dinheirinho das mãos do patrão chega o estado ao pé dele e diz :

estado: - 'eh psst, passa para cá a minha parte.'
tuga:     - 'a tua parte? mas quanto é que é isso?'
estado: - 'eh pá, é coisa pouca, são 11% de segurança social, que é para teres hospitais, escolas e tudo isso que te dá um jeitão e mais 12% de imposto sobre os rendimentos que é para eu poder fazer estradas, jardins, e tudo o que gostas.'
tuga:    - 'ah... bem visto, nem me lembrava disso, mas realmente eu até preciso dessas cenas todas para viver e trabalhar... vai, toma lá 230€.'

Esta pequena conversa acontece já depois do mesmo estado ter ido ao patrão pedir o correspondente a 23,75% (237€) do que ia pagar ao tuga, o que por sua vez terá saído do mesmo esforço do dia a dia (do pobre tuga, não é do estado nem do patrão). 
No final de contas o tuga leva 770€ para casa e o estado leva 467€.

O pobre homem com os seus 770€ não consegue juntar nada e durante o mês gasta tudo o que ganha. 
Em tudo o que ele compra pelo menos 23% vai direitinho para as mãos do estado (IVA) ou seja daqueles 770€ que o tuga levou para casa 177€ vão cair no bolso do estado.
Fazendo bem as contas o tuga, com o suor do seu trabalho consegue comprar bens no valor de 593€ e o estado, do mesmo suor, ganhou 644€ sem ter suado nada.

Ora bem, supondo que o IVA reduzido dos 'bens essenciais' é compensado por muitos outros impostos (bastante elevados por sinal) que ignorei nestas contas (imposto automóvel, petrolífero, SCUTS, etc...) podemos dizer que, genericamente, do suor do trabalho de um gajo o estado fica com 52% e o trabalhador com 48%.

Sou só eu que acho que isto roça o proxenetismo ou o zé povinho é todo muito tonto e deixa-se enganar facilmente?

Suponhamos que a tuga é um país de dois gajos. O Pedro e o Zé. O Pedro trabalha e o Zé governa. Os últimos 30 anos da tuga podem ser contados da seguinte forma:

A cada final de mês:
Pedro: - 'Oh Zé, chega aqui. Olha, já arrucebi o ordenado, toma, 600€ pa ti, pa me governares, 600€ pa mim. Eh lá, mas sobram estas notas? Raios... nunca acerto muito com as contas, fica com elas pa me governares um bocado melhor.

O Zé vai à sua vidinha de governar o Pedro (que consiste em grande parte em não fazer nada e uma outra parte em meter algumas das notas que o Pedro lhe deu no bolso) e vai fazendo o que bem entende com o dinheiro.
O Zé, como governo que é, ainda consegue uns empréstimos para governar melhor enquanto o pobre Pedro tem que fazer a sua vida com o que ganha porque ninguém lhe dá crédito.

Passados alguns anos:

Zé:        - 'Eh Pedro, tamos metidos numa enrascada que nem te conto... desta é que tamos feitos.'
Pedro:  - 'Atão? Mas o que aconteceu? Vá lá, também não pode ser assim tão mau.'
Zé:      - 'Ah não? Olha pá, pedi uns empréstimos para umas cenas e para outras, pa te governar melhor sabes? E agora já devemos 100% do PIB e ainda por cima com os gastos que temos, todos os anos gasto 9% do PIB a mais do que o guito que me dás.'
Pedro:   - 'Estamos feitos? Então tu pedes emprestado agora desenmerda-te. '
Zé:        - 'Desenmerda-te não. Eu sou o teu governo. Tens é que me dar mais algum. Eu consegui aí que uns marmelos (FMI) me emprestassem mais uns 70% do nosso PIB para eu poder pôr as contas em dia. Agora tenho que ganhar mais para pagar a prestação, ou então cortar nas despesas.' 
Pedro:   - 'Então e porque não cortas nas despesas? E que raio é isso do PIB que não percebo nada, nem sei de que valores estamos a falar.'
Zé:       - 'Eh pá, o PIB é uma cena complicada que se calcula com umas contas maradas, mas podemos dizer que é tudo o que tu ganhas mais o que eu ganho durante um ano inteiro e cortar nas despesas está fora de questão, eu faço as leis e a partir de agora tens que me dar mais, vou aumentar aí uns impostos que ainda vamos ver e... olha, lembras-te do subsídio de Natal? Já me dás a minha parte desse, mas se calhar, como é um extra e é, dás-me ainda mais metade da parte que fica para ti.'
Pedro:   - 'Espera lá? Então tu já deves tudo o que nós os dois juntos ganhamos num ano inteiro? Todos os  anos tu gastas tudo o que eu te dou e mais 9% do que nós os dois juntos ganhamos num ano inteiro? Ainda te vão emprestar mais outro tanto para endireitares as contas e eu é que tenho que pagar isso tudo?'
Zé:        - 'Hm... essa é uma forma um pouco redutora de ver a coisa, afinal de contas eu é que nos vou safar desta encrenca... mas sim, é mais ou menos isso.'
Pedro:   - 'Ah, tá bem.'
Zé:        - 'Tá arresolvido.'

Faz sentido?
Será que não precisamos mudar de vida em vez de mudar de governo?

...

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Barcelona Style

Aqui há uns tempos estava eu à porta do escritório, com o Moniz de um lado e o Pedro do outro, os três com o intuíto de iniciar mais um suado dia de trabalho quando passam dois mwangolés.
- "Xê, esse mambo parece mesmo com o Pep Guardiola.", diz um para o outro.
- "Ya, parece mesmo."
Eu olho para um lado, olho para o outro e penso - "Onde raio foram estes gajos ver semelhanças com o Guardiola, nem o Pedro nem o Moniz, nem com muita imaginação se parecem um nadinha que seja com o homem."
- "Olha lá ó Moniz, quem é que parece o Guardiola?"
- "Oh engenheiro, o Guardiola é aquele treinador... acho que é do Barcelona."
- "Moniz, eu sei quem é o Guardiola, não tou é a ver qual de vocês se parece com ele."
- "Não somos nós, é o engenheiro."
- "Ahhh."

Aquilo passou e a minha vida seguiu como sempre uns dias atrás dos outros, até que hoje estava eu na ESCOM a fazer o meu trabalhinho e vira-se um mambo e diz:
- "Desculpa, mas você parece mesmo com o Pep Guardiola."
Estive quase para responder "Ya, tou a preparar o jogo de sábado (a final da Champions)." mas disse apenas "Ah, é capaz, já disseram isso antes."
- "É que tem muitos traços, tem mesmo muitos traços dele."

Dei por mim a pensar...
Quer dizer, antes de vir para cá eu devia andar mesmo maltrapilho, na feira pareço cigano e as ciganas vão perguntar à Tini se ela casou com um deles, em Hong Kong parecia indiano e os indianos vinham falar comigo em Punjabi, na Tunísia não foram poucos os que me vieram falar em árabe para me gabar a conquista de uma moçoila de olhos verdes e em Paris os argelinos cumprimentavam-me mas não cumprimentavam os meus colegas. O que é mau é que nunca pareci um gajo em condições como o Gandhi ou o Saladino só parecia um indiano, árabe ou cigano genérico.

Em Angola sou muito mais bem parecido, não pareço 'um espanhol' pareço o Pep Guardiola.

domingo, 3 de abril de 2011

Parque Nacional da Quissama



Olá,
Eu sou muito preguiçoso e nunca me apetece escrever e é por isso que ainda não vos tinha falado do Parque Nacional da Quissama. Pois bem, eu e a minha estrunflina temos passeado bem menos do que eu gostaria, ainda nos falta ir às segundas maiores quedas de água de África, as quedas de Kalundula do rio Lucala, em Malange,  superadas apenas pelas Victoria Falls do rio Zambeze na fronteira entra a Zambia e o Zimbabwe, ainda nos falta fazer a estrada mais emblemática de Angola, que sobe a Serra da Leba a caminho do Lubango, ir ver a fenda da Tundavala e pelo caminho conhecer o Lobito e Benguela, ainda nos falta ir até às províncias do interior e conhecer outros pequenos sitios como Luena... sim, infelizmente tudo isso e muito mais ainda está por fazer.
Precisamos tirar umas férias e não ir à terrinha (esse país em desgraça mas que todos querem governar) para fazer pelo menos uma parte das viagens.
Voltando ao assunto, de todas estas viagens já fizemos uma, fomos ao Parque Nacional da Quissama. O parque tem pouquinhos animais pois 27 anos de guerra fazem os seus estragos, e uma manhã chega para o visitar. Como tanto eu como a Tini somos bem dorminhocos já fomos tarde, chegámos na hora do calor e por isso não vimos muitos bichos. Só estivemos cara a cara com as girafas e vimos uns pontos negros ao longe que nos disseram ser elefantes. 
Os bungalows do parque são extremamente caros e o Unimog (espécie de camião) em que se faz o safari pelo parque está bastante degradado mas o melhor do parque nem é o safari nem mesmo os animais, é mesmo a vista deslumbrante sobre o rio Kwanza que não vos posso mostrar porque não há fotografia que consiga captar a grandeza daquela paisagem. Infelizmente a minha pobre máquina fotográfica (que desde já vos digo, de tamanho desgosto decidiu, uns dias mais tarde, pôr termo à sua curta vida atirando-se de uma altura de 15 andares) não consegue tirar uma fotografia que alcance todo o campo de visão dos nossos olhos e cada fotografia que eu tirava ao rio era uma desilusão pois nenhuma conseguia transmitir a beleza daquela paisagem. Ainda assim, deixo-vos as fotografias do Parque da Quissama num álbum fotográfico. Dêem uma vista de olhos em https://picasaweb.google.com/bernardo.marques/ParqueNacionalDaQuissama#

Até à próxima,
Bernardo

sábado, 5 de março de 2011

Bolos e bolinhos

Aqui há uns tempos fui comprar uns bolinhos para adoçar o bico à minha Tina.
Entrei na pastelaria, dirijo-me ao rapaz que está na caixa de pré-pagamento e aqui sublinho o facto de ser pré-pagamento e digo:

Eu:       - Bom dia, quero três bolos, por favor.
Caixa:  - Três bolas, é? Três bolas de berlim?
Eu:       - Não, são três bolos mas são outros.
Caixa:  - Quais?
Eu:       - Este, hm... e... hm... este, e...
Caixa:   - Manel, atende aqui este senhor.
Manel:  - Sim?
Eu:       - Quero três bolos por favor.
Manel:  - Quais são?
Eu:       - (Enquanto aponto) Este, este e hm... hm... deixa cá ver... este.

O Manel vira-se para o rapaz do balcão que não tinha mais ninguém para atender e esteve o tempo todo a olhar para nós e diz enquanto aponta:

Manel:  - Olha, são três bolos, este e este e... hm... qual era?
Eu:        - Este.

O rapaz do balcão vai com muita calma buscar uma caixinha, leva o seu tempo para a montar e entretanto o Manel vai atender nas mesas, o rapaz do balcão mete um bolo dentro da caixa e pára. Eu espero enquanto olho para ele, ele olha para mim enquanto espera... eu pergunto-me de que estaremos à espera, ele também deve perguntar algo a si próprio, mas eu não sei o quê, continuo à espera e ele continua à espera. Até que aparece o Manel e o rapaz do balcão pergunta:

Balcão: - Quais são os bolos do senhor?
Manel:  - Este, este e... hm... qual era?
Eu ainda estou atordoado por ter estado aquele tempo todo à espera que o Manel nos viesse dizer quais eram os bolos que eu queria... mas digo 'Este aqui' enquanto aponto para o bolo que faltava.

Uma pessoa normal já fica a pensar 'poxa... até parece que não falam a mesma lingua' mas a história não acaba aqui. O Manel vira-se para o rapaz da caixa e diz:

Manel:  - Olha, foi um bolo destes, e... hã... hm... acho que outro destes... e... hm... 
Caixa:   - São três de 'pastelaria diversa', não é?

Tudo seria tão facil se eu soubesse dizer logo à partida que queria três de 'pastelaria diversa'.

Até outro dia,
Bernardo.

Incongruências do mundo real


Imaginem que um de vocês que vivem na metade de cima do mundo, vai um dia ao cinema ver um qualquer filme... nesse filme aparecem cenas estranhas como um senhor muito janota e finório, com ar de ser bastante endinheirado a ser deixado pelo seu motorista na porta do edifício onde vive, o mais podre e velho que vocês alguma vez viram, com as paredes exteriores e interiores todas graffitadas com gatafunhos ilegíveis, num bairro cheio de buracos com esgotos sem tampa que jorram água negra e perfumada para a estrada, a entrada do edifício em terra, cheia de poças de água criadas pelo constante gotejar de dezenas de tubos pendurados de ares condicionados. Os vizinhos desse senhor vivem no mesmo edifício e alguns não têm motorista mas no estacionamento os veículos fazem inveja às melhores garagens onde cada veículo quer ser maior que todos os outros, Porsche Cayenne, Land Cruiser Prado, Ford F150, Toyota Tundra, Chevrolet Avalanche entre outros gigantes.
Umas cenas depois aparece um jovem, que vive numa barraca no meio do lixo onde não tem água canalizada e luz só de vez em quando mas aparece a jogar na sua Playstation 3. Uma senhora, mãe solteira, que trabalha para ganhar uns 400 dólares americanos compra uma bicicleta, uma PSP e uma Playstation3 como presentes de Natal para o seu filho de sete anos de idade e compra um computador portatil para sí, tudo no mesmo Natal.
Penso que qualquer um de vós, ainda a meio do filme vai dizer 'duh... acho que desta vez o Woody Allen se passou demais, onde raio foi ele buscar estas ideias?'.

Pois bem... basta vir até esta metade do mundo e olhar um pouco pela janela para ver este filme.

Até à próxima,
Bernardo

sábado, 15 de janeiro de 2011

Música de Angola

Ao contrário da Tuga onde a maior parte da música que se ouve é importada aqui em Angola, onde tudo é importado, a música nacional está de saúde e recomenda-se. Podemos ouvi-la a sair das ximbungas, das muitas festas que se fazem por todo o lado ao fim de semana e as rádios também passam quase exclusivamente músicas feitas por cá. Escrevo para vos dar a conhecer algumas (poucas) delas.

Yuri da Cunha - Kuma Kwa Kié - música cantada língua Angolana que penso ser 'kimbundu', mas que, caso esteja enganado, também pode ser 'fiote'.
Pérola - Omboio - música cantada em 'umbundu', língua originária da região do Huambo.
Puto Português - Tá male - muitas das músicas angolanas falam de situações do dia a dia e dos problemas vividos pelo pessoal, esta é uma delas... vale a pena fazer um esforço para perceber a letra porque é o ponto forte das músicas daqui. Ele fala em 'zungueira' que é o nome dado às senhoras que vendem coisas na rua, que por norma carregam numa bacia que levam na cabeça e têm também quase sempre um pequeno nas costas.
Gisela Silva - Vou xinguilar - 'xinguilar' é algo parecido com endoidecer. Para perceberem um pouco do que a rapariga diz convém saber que aqui neste lado do mundo quando um jovem pretende casar com uma 'palanquinha' tem que fazer o 'pedido'. Para esse pedido o jovem pretendente tem que fornecer um certo número de grades de bebidas diversas, o 'alambamento', roupa para os pais, tios e tias da noiva entre outras coisas que por norma são definidas pela família da noiva.

As próximas duas músicas são de duas boas campanhas publicitárias que passam na televisão pública com o objectivo de sensibilizar a população:


A última é uma música tuga mas tem boas imagens de Luanda e a participação do Puto Prata que é angolano:

Até breve,
Bernardo.

sábado, 20 de novembro de 2010

Frutos Exóticos



Eu sei que aí na Tuga se encontram frutos exóticos nos Jumbos, Continentes e afins, uns mais exóticos que outros uns mais caros, outros mais baratos mas uma coisa vos garanto não se compara ao que se vê por aqui. Como deste lado do mundo há mangas a pontapé e côcos ao monte os frutos exóticos não são os mesmos daí. O fruto mais exótico de todos, aquele que nunca ponho dente pois até dói só de pensar comprar, é a cereja que vi à venda hoje pela módica quantia de 60€ o quilo. O segundo lugar da lista de exóctixidade é ocupado pelo morango e pelo dióspiro que se vendem a cerca de 35€ o quilo, depois disso entre os 25€ e os 35€ por quilo encontram-se romãs, nectarinas, pêssegos, uvas e kiwis.
Fazer mangustos no dia de São Martinho é algo reservado aos abastados pois as castanhas custam 25€ ao quilo e se quiserem regar as castanhas com um qualquer vinho o preço médio das garrafas mais acessíveis anda entre os 10€ e os 15€.

Aqui há dias quase tive que dar umas valentes porradas na minha Tina pois ela cometeu a ousadia de me trazer dois pêssegos para casa. Vocês estão bem a ver a responsabilidade que é trazer dois pêssegos? Gasta-se ali uma fortuna e se depois não sabem tão bem como esperávamos? E se estão ainda um pouco verdes? Ou maduros demais? Uma pessoa desgraça ali a semana num instante, é que nem consegue trabalhar sossegado o resto da semana sem pensar no raio dos pêssegos.

Até outro dia,
Bernardo (e Tini)

Nota: câmbio feito à Bernardo de 1 Kwanza = 1 cêntimo, na realidade os preços são umas migalhas a menos.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Canal Logístico de Luanda


Aqui há dias tive que enviar umas placas electrónicas de avião para Cabinda pois uns colegas meus estavam lá a trabalhar e precisavam delas. Como o Martins tinha ido no dia anterior despachar umas ferramentas também para Cabinda liguei-lhe a perguntar como tinha que fazer.
"Ah... e tal e coisa e depois falas com os seguranças que estão lá no terminal doméstico e eles encontram alguém que vai viajar para Cabinda e pedem à pessoa para levar a encomenda, depois tens é que dar uma gasosa. Eu dei três mil kwanzas.", "Tás mal ó quê? Não me estás a ver a passar a tarde a pedir às pessoas para levarem uma encomenda, só se forem muito tonhas é que levam mercadoria de outros em troca de três mil kwanzas. Eu quero saber como se envia por correio ou transportadora.", "Não dá, isso é só se forem coisas muito pesadas, para coisas pequenas é assim, não há outra maneira, senão sai muito caro e é os seguranças que pedem às pessoas, só tens que pedir aos seguranças.", "Deixa estar eu quando chegar lá descubro como se envia.".

Lá fui eu, todo pimpão, com o Pascoal em direcção ao terminal doméstico. Ainda não tínhamos entrado pelo portão do parque de estacionamento quando aparece um manfio a perguntar ao que íamos. "Pois... e tal e coiso e temos aqui umas cenas para enviar para Cabinda.", "Quando hoje? Querem despachar isso hoje? O último voo está mesmo a sair, o homem que está em Cabinda pode ir buscar a mercadoria ao aeroporto?".
Enquanto eu ligava aos colegas que estavam em Cabinda o "intermediário" ia dizendo "Eh pá, mas nós vamos fazer isto tudo legal, eu não envio isto por um gajo qualquer, é tudo legal, por correio. E o que está dentro das caixas? Preciso ver... Ah bem, isso pode ir na bagagem de mão, porreiro, só vou ali falar com o meu amigo do check-in.", "Olha e quanto é que isso vai custar?", "Eh pá, eu só fico com mil kwanzas, dás-me três mil, mas para mim é só mil kwanzas é que a gente vai fazer isto tudo legal, não é de qualquer maneira é tudo legal por correio."

Fomos entrando e ficamos ao lado do balcão de check-in, entra um rapaz e o "jeitoso" vai logo ter com ele, "eh pá, já vens muito tarde, o teu voo tá para sair, dá-me o bilhete e o teu BI que se calhar ainda consigo dar-te uma ajuda. O teu check-in já fechou pá, mas eu sou amigo e vou desenrascar-te". Aproximam-se do balcão de check-in e a rapariga diz que já fechou, vamos para o balcão ao lado, "Eu vou desenrascar-te pá, já vieste muito tarde, se eu não estava aqui perdias o avião, mas em troca tens que me levar uma caixinha.", "Hã? E o que é isso? Eu nem sei o que está aí.", "Isto é tudo legal, eu já estive a ver e é um pisca e uma correia de automóvel, diz só aí o teu número de telemóvel a eles e eles dizem-te o da pessoa que precisa disto, tu só tens que fixar esta caixa, apanhas no tapete e dás logo à pessoa que vai estar lá à tua espera. Não dá trabalho nenhum, eu também te estou aqui a desenrascar...".

Lá se vai a nossa mercadoria para o porão e o rapaz em direcção às portas de embarque. Dou os três mil kwanzas ao bacano e ele entrega mil ao amigo do balcão de check-in, enquanto vejo o "rapaz correio" a se afastar pergunto ao "senhor logístico", "Então e não dás mil kwanzas ao gajo que vai levar as cenas?", "Hã? Não pá, ele eu já ajudei, então não viste que se eu não o ajudasse ele já não ia voar? Muita sorte teve ele. Isto é mil para o meu amigo do chek-in que nos ajudou e é só dois mil para mim."

A verdade é que a encomenda chegou mesmo ao destino e aquele que fez o transporte foi o que não viu dinheiro nenhum.
Eu que pensava que ninguém aceitaria levar coisas de desconhecidos por três mil kwanzas afinal vi um jovem com ar de quem estuda na universidade levar uma encomenda a troco de nada ainda por cima sem se certificar do que estava realmente dentro das caixas.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A minha rua

A minha rua tem muitos guardas. Durante a noite e só aqui à porta de casa há pelo menos quatro, um da casa onde vivo, outro da casa à direita, um da casa em frente e outro da mini-micro-mercearia em frente. Ainda assim, numa rua tão bem guardada, esta noite roubaram o vidro traseiro do meu jipinho, não tiraram mais nada do carro, nem cds, nem os 400Kz nem uma balança que estava na mala, só o vidro. Quatro guardas a guardar e os manfios tiveram tempo parar tirar o vidro, como raio é que se tira um vidro de um carro pelo lado de fora sem estragar nada?

Que um guarda  que trabalha de noite adormeça uma pessoa até compreende, que dois guardas adormeçam já parece estranho... mas não, na minha rua os quatro adormeceram (ou isso ou os outros como só estão a guardar a casa do lado, a da frente e a mini-mercearia veem roubar e não se importam porque não é nada do que estão a guardar). 
Cá no meu entender só pode ter acontecido o seguinte:
Como é muito inverosímil que quatro guardas que são pagos para guardar coisas durante a noite adormeçam todos na mesma noite só pode ter sido obra dos extra-terrestres. Como os ETs se sentem muito vigiados sempre que vão roubar coisas nos Estados Unidos com certeza resolveram vir para outras paragens. Infelizmente para mim escolheram Angola, apanharam esta rua escura com quatro guardas e zás... com uma qualquer luz muito brilhante induziram o sono em todos eles e desataram a procurar um vidro que servisse no ovni. Sim, onde raio pensam vocês que vão, os extra-terrestres, buscar peças para os ovnis quando algo se estraga porque chocaram com um pombo ou com um morcego?
Infelizmente para mim sou o único feliz proprietário de um Suzuki Jimny nesta rua, o resto do pessoal tem tudo daqueles jipes gigantescos ou carrinhas do género da strakar. Ora, o único vidro maneirinho estava logo ali, enfiado na traseira do meu Jimny, não tem mais nada, com uma luz muito brilhante vai de puxar o vidro para cima e já está. Os guardas não se lembram de nada e só desapareceu um vidro durante a noite.


Bernardo Marques.

sábado, 11 de setembro de 2010

A rua

A rua em Luanda é o centro de negócios, tudo se compra e tudo se vende no passeio ou na berma da estrada.
Enquanto que nos semáforos da tuga só encontramos pedinchas ou vendedores de pensos rápidos aqui enquanto esperamos pelo verde ou estamos parados no transito podemos comprar de tudo. Desde fruta (uvas, morangos, mangas, ananases, castanha caju entre muitas outras) a bebidas (cerveja, cola, sumos) passando por mobílias, cintos, tampas de sanita, telemóveis, óculos de sol, roupas, varões de cortinados, jornais e revistas, fichas triplas, cadeados, carregadores e baterias para telemóveis, tudo... seja lá o que for que precisem há alguém que na berma de uma estrada qualquer está a vender. O mais engraçado é que há estradas mais especializadas numas coisas do que noutras. Há estradas em que o pessoal vende maioritariamente mobílias (por catálogo), outras têm mais fruta e outras é mais telemóveis. Já nas estradas mais movimentadas e mais sujeitas a demoras como a estrada a Samba ou a avenida Ho Chi Min vende-se de tudo. Se por acaso, a fila em que estão parados andar a meio de uma transacção económica não há qualquer problema, por norma o vendedor vai correndo ao lado do carro até que a fila pare de novo ou dê para encostar à berma. 
Mas não pensem que só quem anda de carro consegue fazer as suas comprinhas, nada disso, para quem anda a pé há tudo isto e muito mais, o luxo dos luxos é a manicure e pédicure, algo em que só reparei ultimamente que tenho feito alguns quilómetros a pé pela cidade. Um sonho para qualquer moçoila. Aqui em qualquer passeio encontram-se jovens rapazes bem constituídos com inúmeros vernizes, ferramentas e produtos de cosmética que desconheço (nunca fui tratar as minhas unhas) e é frequente ver-se uma rapariga sentada numa cadeira com um jovem a tratar-lhe cuidadosamente das mãos ao mesmo tempo que outro lhe vai tratando dos pés, há lá luxo maior? Quando vir um par de moçoilas jeitosas manicuras-pédicuras até eu vou tratar das minhas unhas. De certeza vale bem os 100 ou 200 Kwanzas que deve custar.

Até outro dia,
Bernardo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Sem assunto

Há duas melgas que não se cansam de me chatear para escrever... eu estava à espera de ter a minha casa para ter algo sobre o que falar... mas para ver se elas não encomendam alguém para me partir os dentes vou falar do tempo.

Já voltei para Luanda no dia 31 de Julho. O tempo (meteorológico) aqui tem estado excelente. Não tenho nenhum termómetro à mão mas penso que a temperatura deve rondar os vinte e tal graus tanto de dia como de noite. Não está calor nem está frio, nem chove nem faz sol, anda-se à vontade com uma t-shirt mas também não se transpira.
Não dá para fazer praia ao fim de semana mas dá para ir almoçar um mufete à Chicala e dar um passeio pela praia sem se ficar incomodado com o calor.

Sobre o tempo é tudo.

Quase que já tenho a minha casinha. Encontrei um pequeno apartamento num edifício antigo (pré-75), o edifício tem 3 elevadores que devem estar parados há uma vintena de anos, tem as paredes grafitadas mas é limpo e o apartamento é bastante jeitosinho. Está arranjado, tem gerador, bomba de água e ar condicionado, está quase todo mobilado e é só 'muito caro'.
Não reparei se aqui há contadores de água e luz ou não mas uma coisa boa aqui é que se paga 600Kz de água independentemente de quanto se gasta e não tenho bem a certeza do valor da electricidade (penso que ronda os 1300Kz) mas sei que também não importa o consumo, é um valor fixo o que permite ter luzinhas de natal o ano inteiro sem que se pague mais por isso.

Bernardo.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Intervalo

Agora que estou em Portugal a fazer o primeiro intervalinho e fui visitar alguns amigos reparo que a grande maioria dos leitores do meu blog retiveram uma de duas ideias essenciais.

ideia número 1:
- Angola é o inferno na terra. Melhor seria emigrar para o pólo norte e ter que sobreviver da comida que conseguisse roubar aos ursos polares.

ideia número 2:
- Terei uma vida breve que irá terminar precocemente às mãos do primeiro Angolano que calhe de ler os meus textos e tenha a sorte de passar por mim na rua.

Ao reler o que escrevi nestes últimos tempos noto que só conto coisas 'menos boas' e até mesmo quando escrevo para falar das praias paradisíacas há sempre um tropeção qualquer para manchar a pintura.
Isso deve-se ao facto de o que me acontece de realmente diferente, aquilo que choca porque nunca antes me tinha acontecido são as coisas más. São apenas essas que conto... não tenho pachorra para vir aqui escrever umas patacoadas sobre o dia todos os dias e como tal apareço apenas quando algo extraordinário acontece. Como é óbvio houve setenta e alguns dias perfeitamente normais dos quais não falei. Faltam aqui setenta posts a dizer apenas 'hoje foi um dia bonzinho'.
Em Portugal também acontecem coisas de meter medo, eu é que nunca escrevi sobre elas senão tenho quase a certeza que a maioria dos meus leitores (já são 13) iria logo emigrar para um outro país qualquer sobre o qual eu não andasse a escrever.

Imagino que um qualquer norueguês está neste momento emigrado no Porto e descreve, no seu blog, a forma nojenta como nós damos dinheiro a uns maltrapilhos que nos indicam onde estacionar, imagino mesmo um post onde descreve o horror de quando o canalizador foi lá a casa e lhe disse que 'Se for sem factura é mais barato...' e como ele ficou aterrorizado por ter um criminoso dentro de casa, será que lhe ia violar a mulher? Ele até pode ter muitas saudades da neve e nevar no Porto que não vai falar sobre isso porque para ele neva todos os dias, vai apenas contar do dia em que queimou as costas todas, que não conseguiu dormir uma semana, só porque trocou de t-shirt à luz do dia.
Infelizmente, nenhum de nós sabe ler norueguês e é apenas por isso que não encontramos este blog de que vos falo.
Em Angola sou eu o norueguês, só não estou habituado às coisas normais.


Para informação de todos:
Eu gosto de Angola.

Em Angola vive-se uma razoável normalidade. Come-se bem, anda-se à vontade pela rua sem medo de ser assaltado e pode-se fazer tudo o que se faz numa vida normal.
Tirando o factor dinheiro, porque para viver em Angola convém ter muito dinheiro, na minha opinião Angola é um sitio perfeitamente normal, tem apenas a agravante de que só nos apercebemos disso um mês depois de lá estar, que é sensivelmente o tempo que demoramos para nos habituarmos a todas aquelas coisas que nunca antes tínhamos visto.

Quando tiver lá a minha Tini comigo iremos passear à fartazana e tirar fotografias a monte para poder escrever sobre o que Angola tem de bom.

Até à próxima,
Bernardo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Só aqui...


Comecei a minha busca por um apartamento em Luanda. 
Aqui há de tudo, do 'muito bom' ao 'extremamente mau' sendo este último o mais comum. 
Já relativamente ao preço esse vai do 'extremamente alto' ao 'ridiculamente alto'.
Como procuro um preço apenas 'extremamente alto' não vi nada do 'muito bom' mas já vi uma 'barraca' à qual me levaram ludibriando-me dizendo que iria ver uma 'casa' e vi dois 'buracos' que me tentaram convencer que seriam 'apartamentos' de dois quartos.
O mal é que 'extremamente alto' para qualquer comum mortal não é o mesmo que 'extremamente alto' para Luanda, pediram-me 2000 USD pela 'casa', 3000 USD por um dos apartamentos e 4000 USD pelo outro.
Estes são os valores normais para este tipo de 'casas', umas sem casa de banho e outras com uma cozinha completamente vazia (sem lava-loiças). Como sei que a imaginação de um qualquer comum europeu  não consegue atingir como são as casas de que falo ponho aqui imagens de uma proposta que me foi enviada por uma imobiliária (sim é verdade, aqui as imobiliárias têm mesmo casas destas em carteira e nem sequer são arrumadas para a fotografia).
Não tenho qualquer intenção de ofender os proprietários ou qualquer outra pessoa nem denegrir a imagem de ninguém, coloco-as apenas a título informativo como exemplo do que se tenta alugar por 4000 USD/mês em Luanda e que em Portugal nenhuma imobiliária pegaria. É um apartamento normal, num prédio normal de uma rua normal, não vos estou a mostrar uma barraca num musseque porque essas nem sequer eu imagino como serão pois ainda não tive o privilégio de conhecer nenhuma.
Aqui ficam as fotos:















Não quero que pensem que aqui é tudo assim, por isso deixo os links para que possam ver também o que há de 'muito bom' embora os valores sejam bastante acima daqueles que especifiquei aqui.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Já era

Já está... 

Ao fim de 1127 Km, quatro semanas (ou serão cinco?) de carro novo acabou-se a contagem para o record de 'mais longa duração de um carro sem mossas em Luanda'.
Uma besta 'ajeitou-me' o para-choques traseiro que estava muito feio assim, todo direitinho. Como eu me desvio deles enquanto conduzo trataram de dar o 'jeitinho' quando o pobre veículo estava a descansar, estacionado, durante a noite, às 23h (a besta já devia vir bem regada) e trataram de fugir logo de imediato. Assim, aquele que era antes conhecido como 'o anormal da chapa imaculada' ou o 'virgem de traseira' pode agora integrar-se muito mais facilmente nesta comunidade de veículos amachucados. Enquanto antes era desprezado por todos, sempre cabisbaixo e maltratado na estrada agora já pode andar de capô erguido e olhar os outros de frente, nos faróis. Agora sim, é um verdadeiro veículo angolano.
Bem que o mandei arranjar logo mas ficou com cicatrizes no para-choques que são para sempre para além que tem, ainda, o vidro do pisca traseiro direito partido (vamos a ver se não vou ter que dispensar umas 'gasosas' à conta disso).

Em breve irei voltar 'lá na tuga' e o pobre vai ficar estacionado semanas à minha espera... estou para ver como vai estar a traseira quando voltar.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Mussulo


Por apenas 500Kz há um monte de marmanjos que vão brigar para vos poderem levar no seu barco até ao paraíso. 'Chefinho vem aqui', 'Chefia olha esse', 'Pai grande tem este aqui' dizem eles enquanto apontam para os seus barcos. Escolhemos um aleatoriamente e lá vamos nós a voar sobre as águas até ao Mussulo...
Apesar de já ser inverno e estar cada vez mais frio (pelo menos a acreditar no que dizem os angolanos) estão uns 30 graus, um sol de queimar pretos, a areia consegue grelhar os pés de qualquer um que se aventure a ir dar um passeiozinho descalço (sei-o por experiencia própria) e a água é quente.
Um sitio espetacular onde certamente irei passar muitos fins de semana invernosos com a minha Tini.
Ficam as fotos, de apenas um pequeno pedaço do Mussulo, no álbum:

Bernardo.

domingo, 16 de maio de 2010

Conduzir em Luanda



Agora que já conduzo há umas três semanas, tenho 600Km percorridos em Luanda e devo ser detentor do recorde de "mais longa duração de um veículo (em África) sem levar um 'jeitinho na chapa'" aprendi umas regras básicas de condução que aqui deixo, pode ser que venham a ser úteis a alguém.

Regra nº 1 - Faixas de rodagem:

Se a estrada tiver mais do que uma faixa deve-se conduzir sempre na faixa mais à esquerda, a da direita serve apenas para ultrapassar.
Listo de seguida algumas coisas menos agradáveis que é mais provavel que aconteçam a quem anda pela direita por mais do que o tempo estritamente necessário a uma ultrapassagem:
- A bófia manda parar apenas aqueles que andam na faixa da direita. Os policias estão sempre na berma ou no passeio e como qualquer outra pessoa com o juízinho todo, não gostam de arriscar a vida, como tal, não vão à terceira faixa buscar um gajo e pedir-lhe para encostar à berma. Assim, se conduzirmos sempre pela esquerda só somos apanhados nas estradas de apenas uma faixa
- Os candongueiros encostam à berma para carregar (e de que maneira) e descarregar pessoas. Como qualquer outro condutor de Luanda ou não tem piscas ou não sabe para que servem, e arrancam sempre sem olhar se vem alguém. Têm dois motivos para não olhar, primeiro têm prioridade (a regra nº 2 é a das prioridades), segundo, se ninguém anda na faixa da direita e não qual o interesse em perder tempo a olhar?
Num percurso de menos de 10Km em que circulei pela faixa da direita quase me entraram três iáces pela porta do passageiro.
- O pessoal que quer passar um outro veículo, que vá à sua frente na faixa da esquerda, tem que mudar para a faixa da direita, se vocês calharem de estar lá azar... quem vai ultrapassar tem prioridade e muda de faixa na mesma, claro que isto acontece sem pisca e sem olhar, o mais provável até, é que o carro não tenha espelhos (aqui, para além de auto-rádios roubam espelhos, pneus suplentes, centralinas, piscas, vidros, etc.).
No mesmo percurso em que quase levei com três iáces em cima tive que me desviar de dois ultrapassadores porque apesar de eu estar lá eles sabiam que eu me ia desviar, quem anda a engonhar na faixa da direita tem mais é que se desviar para quem quer passar os que vão na faixa da esquerda.

Regra nº 2 - Prioridade:

A estrada é de todos e como tal todos têm prioridade, ninguém é mais importante que os outros.
Aqui não interessa quem vem da esquerda ou da direita, se está a sair de um estacionamento ou a entrar numa rotunda, se tem um stop ou se entra numa auto-estrada, quem vai a conduzir tem sempre prioridade e quem meter a frente primeiro é que passa primeiro, o outro tem que parar caramba. Não há regra mais simples que esta.

Regra nº 3 - Cedência de passagem:

Cedência de quê? Mas se tenho prioridade passo eu como é lógico. 
Aqui ninguém dá um centímetro para outro passar.
Mas então como se vira à esquerda?
Esperar que alguém pare para vocês passarem é irracional porque ninguém vai parar, e esperar que não venha veículo nenhum é sinónimo de esperar até à manhã seguinte. Assim quando uma pessoa tem que virar à esquerda ou entrar numa estrada principal e estão sempre a passar veículos tem que ir metendo a frente aos poucos até obrigar alguém a parar. Se tiver que cruzar mais do que uma faixa tem que ir metendo devagar a frente na próxima faixa até obrigar outro a parar e assim sucessivamente até conseguir passar.

Para ilustrar ainda mais a regra da cedência de passagem suponhamos a seguinte situação:
Estamos numa fila interminável e chegamos a um cruzamento onde quem vem na estrada perpendicular à nossa já não consegue passar, apesar de terem a via deles completamente desobstruída, porque o veículo à nossa frente lhes impede a passagem. Se aquele que está à nossa frente avançar 1m o que devemos fazer? Ficar onde estamos para que os outros possam passar (não vão para o mesmo lado que nós e a nossa fila contínua parada), ou avançar 1m e passamos a ser nós a impedir a passagem dos outros carros? 
Vejamos como pensa o condutor de Luanda:
1 - Eu tenho prioridade.
2 - Fica a faltar menos 1m para chegar ao meu destino.
3 - Eles não são mais do que eu, se eu vou passar aqui as próximas duas horas vamos todos passar aqui as próximas duas horas.

A decisão é óbvia. Ninguém fica parado quando pode avançar 1m, até que fosse só 1cm avançava-se na mesma, mas que raio de pergunta parva, qualquer dia vamos a ver e até se vai parar para os outros passarem, não?

Regra nº 4 - Passadeiras:

Na aproximação a uma passadeira com pessoas à espera para passar acelera-se sempre, não lhes vá dar a ideia de passar mesmo e termos que parar, onde é que já se viu!

Regra nº 5 - Bermas:

As bermas servem para ultrapassar um veiculo que esteja ultrapassar outro ou alguém que vá na faixa da direita a engonhar.

Estas são apenas as regras mais básicas que todos os Luandenses (estrangeiros que conduzem em Luanda incluídos) nascem a saber. As restantes aprendem-se com a experiência.

Até à próxima,
Bernardo.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Angola, terra de contrastes

Manhã:

Hoje, um colega meu (angolano) aleijou-se e eu levei-o a um 'centro de saúde' de Luanda.
Saímos da estrada alcatroada seguindo umas indicações que nos tinham dado para chegar ao centro de saúde. No meio de ruas de terra vermelha, entre barracas de toda a espécie e feitio com muito lixo na berma da estrada, lá estava ele, uma barraca um pouco melhor que as restantes mas ainda assim não passava de umas paredes velhas e esburacadas e um telhado de Zinco, um espaço pequeno... mais pequeno do que qualquer centro de saúde que alguma vez tenha visto.
Lá fora o cheiro do lixo era demasiadamente intenso, lá dentro a luz era fraca, o chão sujo, com terra em cima dos ajulejos brancos, bancos de lata todos amolgados mais velhos do que eu e gente, muita gente, a cheirar a suor... Era um sitio em que, atrevo-me dizer, pelo aspecto do que se via da porta, se fosse uma casa de banho pública (em Portugal), eu teria relutância em entrar.
Lá me sentei num banco, com a companhia de uma centena de pessoas enquanto esperava que assistissem o meu colega. Ele entrou na salinha de 'curativos' e passado um pouco entra também uma senhora que pressionava um pano ensaguentado contra uma ferida na cabeça. Eu continuava sentado e só conseguia pensar 'Com as condições que têm aqui espero bem nunca precisar de ser assistido num centro de saúde'.
Passado um pouco lá aparece o meu colega já com um penso e diz-me que pediram para eu ir lá. Era preciso pagar a linha com que o tinham cosido. Ele já tinha pago 400Kz mas não chegava, faltavam 50 da linha e 200 da anestesía mais a vacina, eu ainda teria que pagar mais 450Kz.
Eu pedi que lhe devolvessem os 400Kz pois queria pagar a despesa toda. Dei 1000Kz e ficou pago.
Entretanto passaram uma receita com os comprimidos que o rapaz havia de tomar. Para quem não sabe uma receita nesta terra não passa de um papel de um daqueles blocos pequenos, que todos nós temos numa qualquer gaveta, mas em que cada página foi carimbada.
É apenas uma folha branca com um carimbo onde a enfermeira escreve o nome dos medicamentos a comprar. E perguntam vocês, 'Enfermeira? mas não é preciso ser médico para passar receitas?'.
Qual quê? Se a senhora algum dia estudou para enfermeira já era uma sorte, muito provavelmente aprendeu tudo o que sabe a trabalhar ali no centro de saúde. Ela sabia o nome dos medicamentos que queria passar mas receitou 21 comprimidos para tomar de 12 em 12h durante 7 dias.
Eu disse-lhe 'Se toma 2 por dia durante sete dias dá menos que 21, têm que ser 3 por dia para dar 21.' e ela decidiu alterar a receita para 8 em 8h.
Enquanto o meu colega foi apanhar a vacina do tétano eu fiquei sentado lá dentro da 'sala de curativos' onde estava a senhora (que mencionei antes) com um lenho na cabeça. Contaram (as duas enfermeiras, ou médicas) que a rapariga estava a lavar loiça quando caíu uma senhora pedra do telhado de zinco e fez uma ferida tal que tinha atingido um vaso. Como tinha ido a andar até ao centro chegou com o sangue quente e por isso, a ferida, espirrava sangue.
Lá me contou, enquanto apontava para o chão, que levantou o pano para ver a ferida e tinha saltado um jacto de sangue. Eu olhei horrorizado para o risco de sangue que estava pintado no chão e corria a pequena sala de um lado ao outro... felizmente a senhora já tinha um penso na cabeça e estavam à espera que a ferida acalmasse para a poderem coser.
A enfermeira chefe (pelos menos era a chefe delas as duas) disse para a senhora que acompanhava a da cabeça rachada 'Se ela tivesse ficado mais tempo lá em casa podia entrar em estado de choque por perder muito sangue' e eu pensei para mim próprio 'E será que aqui não vai entrar em choque por perder muito sangue? ou será que não vai acabar por apanhar uma infecção qualquer? afinal ainda não foi cosida e não.'
Nisto aparece um homem à janela, trazia um saco com medicamentos e disse que tinham custado mil Kwanzas, a enfemeira chefe pediu à enfermeira subalterna que confirmasse os medicamentos e perguntou se tinha receitado o 'schpirafernilfól' de 12 em 12h, ela replicou que tinha receitado de 8 em 8h e levou uma repreensão porque tinha que ser de 12 em 12, aquele medicamento não podia ser tomado de 8h em 8h. De seguida vira-se para mim e pergunta 'Já pagou?', 'Já paguei o quê?', 'Os medicamentos?', 'Quais medicamentos? não estou a perceber.', 'Esses aí, já não precisa ir à farmácia, nós tratámos de tudo e é mais barato, olhe que só pelo 'burfenilfalitílico' tavam a pedir 800Kz na farmácia ali do 'Ximbungo' e nós compramos por 200Kz'.
Fiquei meio desconfiado e preferia ter ido à farmácia comprar os medicamentos (sabe-se lá de onde é que aquilo veio, o mais provavel é que haja um chinês no fundo da rua a fabricá-los na hora) mas lá acabei por me deslocar até à janela, esticando-me todo para evitar pisar o risco de sangue que ninguém se preocupava em limpar, dar os 1000Kz ao homem que apareceu com os medicamentos.



Inicio da tarde:

Durante a tarde, enquanto estava num elevador entra um senhor. Era um chefe de cozinha, de uma cozinha que não vou especificar. Disse, 'Caramba, o homem já provou o vinho de quatro garrafas de 1000 dólares cada e não gostou de nenhuma, tenho que ir lá abaixo buscar uma outra que vale 1200 dólares'. Eu vi a nova garrafa, vinho português cujo nome não vou publicitar, de Évora, e custa em Angola 1200 dólares. Aprendi que é um dos melhores vinhos portugueses, senão o melhor, e que é feito apenas de 7 em 7 anos.
Conclusão, num almoço de terça-feira, apenas em vinho, alguém gastou mais de 5000 dólares de uma assentada só...
Não sei se aquela garrafa foi bebida ou não, mas pelo sim pelo não disse ao senhor que se não soubesse o que fazer com as garrafas rejeitadas mas podia entregar que eu encarregar-me-ia de lhes dar destino.
Infelizmente acabei por não receber nenhuma daquelas garrafas de 1000 dólares às quais faltavam apenas alguns mililitros mas foi por pouco que não estive de manhã na maior pobreza e à noite a deleitar-me com o melhor vinho.


Ah terra de contrastes, de manhã as pessoas passam dificuldades para conseguir pagar os mil kwanzas (10 dólares) da linha com que foram cosidas e à tarde não gostam do vinho de 1000 dólares por garrafa.

Como será que vai ser a manhã de amanhã?

domingo, 18 de abril de 2010

Cabo Ledo


Fui para a praia de Cabo Ledo.
Uma praia bonita, com muita água e muito sol, tirei algumas fotos.
Depois de uma bela manhã de molho dentro de água fomos almoçar umas lagostas, um pargo grelhado, umas cervejas e três horas a almoçar.
Três horas? ... será que comemos muito? ... será que comemos devagar pois havia muita conversa?
Nada disso.
Mal chegámos à praia tratámos de reservar almoço, duas lagostas para cada um.
Um pouco antes do meio dia vamos para a mesa que está reservada... passados uns dez minutos aparecem-nos as lagostas à frente... era só uma e meia pois ali não era vendida à peça mas sim à dose que era de apenas uma e meia. Como ficámos com alguma fomeca pedimos para trazer um peixito grelhado e dois pratos pois iríamos dividi-lo.
Até aqui muito bem... esperámos e vimos o pessoal na praia ir à água, voltar, secar, ir à água de novo, secar de novo, voltar à água... o peixe demorou mais de hora e meia para chegar e o rapaz que nos atendia não aparecia em lado nenhum nem para lhe pedirmos uma cervejola.
Depois de apanharmos uma grande seca o peixe aparece mas vem apenas num prato, 'Olha, traz dois pratinhos se faz favor que é para dividirmos o peixe e traz também duas cervejas geladinhas'. Enquanto esperávamos lembrei-me e disse para o meu colega, 'eh pá se calhar devíamos ter dito ao rapaz para trazer também garfo e faca, de certeza que ele vai aparecer aqui só com os pratos'. E foi? ... Não ... passados uns cinco minutos apareceu com duas cervejas, o meu colega diz 'Olha, traz os pratos por favor que é para comermos o peixe' e eu acrescento 'e traz também faca e garfo'. Passados dois ou três minutos aparece o rapaz com duas facas e dois garfos, 'Olha, mas traz os pratinhos para podermos comer, por favor'... tudo isto  com um enxame de moscas esfomeadas a cobiçarem o nosso peixe e algumas mais afoitas que se esgueiraram por entre as nossas 'mãos sacudidoras' a conseguirem prová-lo mesmo antes de nós.
O rapaz lá acabou por trazer os pratos mas foi já depois de eu ter desesperado e me ter levantado para ir à cozinha buscar os pratos.

Daqui até Cabo Ledo há centenas de quilómetros de praias completamente desertas.


Até outro dia,
Bernardo.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Luanda vista de cima



Escrevo apenas para dizer que foram acrescentadas algumas fotografias ao álbum.
Hoje estive no heliporto do edifício sede da Sonangol e deu para tirar algumas fotografias de Luanda vista de cima.


Até outro dia,
Bernardo.